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Os 100 anos de Luiz Gonzaga

Fotografia de Luiz Gonzaga no Memorial Luiz Gonzaga, Recife, PE
Flickr: Everaldo Vilela | Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)

Introdução

No Recife, onde desembocam no mar os rios Capibaribe e Beberibe, espaço geográfico de natureza extrema e rica cultura, um artista de 76 anos de idade realizou seu trabalho pela última vez. Não foi um fim marcado, apenas esperado. Na manhã do dia 2 de agosto de 1989, Luiz Gonzaga, figura ímpar da música popular brasileira, teve sua poesia dada por encerrada. Morreu ali o Rei do Baião – uma das mais completas e inventivas vozes da música brasileira. É de sua safra, por exemplo, as popularíssimas “Asa Branca” e “Baião”; canções que ultrapassaram a fronteira da indústria fonográfica e se tornaram fenômenos culturais. Neste ano, 2012, o “poeta do sertão”, como ainda é tratado por seus fãs, completaria 100 anos de vida. Mas, para entender o fenômeno Gonzaga, é preciso antes conhecer sua trajetória.

Município de Exu, PE, onde nasceu Luiz Gonzaga
Flickr: allanpatrick | Attribution-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-SA 2.0)

Nasce Luiz Gonzaga, um mito da música brasileira

Filho do sanfoneiro Mestre Januário e de Ana Batista de Jesus, Luiz Gonzaga do Nascimento vem ao mundo numa sexta-feira 13 de 1912, na Serra do Araripe, Pernambuco. Poderia ser apenas mais um garoto, mas graças à influência musical do pai, um sanfoneiro de oito baixos afamado na região, Gonzaga viria, com o tempo, a se tornar um ícone musical brasileiro.

Festa Junina do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, também conhecido como Feira de São Cristóvão
Flickr: Digo_Souza | Attribution-NoDerivs 2.0 Generic (CC BY-ND 2.0)

A primeira apresentação

Vinte mil réis. É esse o valor que o então moleque Luiz Gonzaga recebe em sua primeira apresentação, aos nove anos de idade. A ocasião, uma festa tradicional realizada em uma fazenda nos arredores da Serra do Araripe. Não é uma situação qualquer. À época, o domínio da sanfona demonstrado por Gonzaga é tamanho que ele já se apresenta livremente em grandes festas no lugar do pai. Dão-se ali seus primeiro passos no mundo da música.

Jack Hollingsworth/Photodisc/Getty Images

A primeira sanfona

Mais tarde, em 1926, aos treze anos, os passos de Gonzaga rumo à profissionalização de seu trabalho começam a ganhar contornos ainda mais definidos. É esse o ano em que Luiz Gonzaga compra sua primeira sanfona, um Oito Baixos Koch, pelo valor de 120 mil réis. O dinheiro para a nova aquisição viera de um empréstimo feito ao coronel Manoel Ayres de Alencar. A confiança do músico é tamanha que, ao saldar sua dívida com o coronel, seu único aviso é “agora serei sanfoneiro profissional”.

Keystone/Hulton Archive/Getty Images

O “bico de aço”

Em seu percurso rumo à carreira de sanfoneiro, os caminhos levam Gonzaga ao Exército Brasileiro, em 1933. Lá, o sanfoneiro se torna tambor-corneteiro. Tamanha a disposição e a intimidade do músico com o instrumento acabarem lhe rendendo o apelido de “bico de aço”.

Vista do Rio de Janeiro
Flickr RIOTUR | ASCOM

Rumo ao Rio de Janeiro

Pouco tempo depois, em 1939, Luiz Gonzaga se desvincula das Forças Armadas e seu destino o guia para o Rio de Janeiro. Lá, com sua sanfona Honner branca a tiracolo, ele começa a fazer sucesso em festas de ritmos populares da época. Entre eles, festas conduzidas ao som de valsa, tango e choro.

LP em exposição no Memorial Luiz Gonzaga, Recife, PE
Flickr: Everaldo Vilela | Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)

A primeira gravação

Já projetado na cena musical carioca, Luiz Gonzaga faz sua primeira gravação no dia 5 de março de 1941, como sanfoneiro da dupla Genésio Arruda e Januário França. Graças ao seu talento, ele consegue despertar a atenção do empresário da dupla, Ernesto Augusto Matos. A partir daí o sucesso se torna questão de tempo. No dia 14 de março do mesmo ano ele grava seu primeiro disco, com quatro músicas. O resultado: a primeira reportagem abordando o trabalho de Luiz Gonzaga, na revista carioca Vitrine. O título da reportagem: "Luiz Gonzaga, o virtuoso do acordeom".

Divulgação

Primeiros passos como cantor

Anos mais tarde, em 1945, Luiz Gonzaga dá mais um importante passo para a solidificação de sua carreira musical: no dia 11 de abril, ele grava seu primeiro disco como cantor. As primeiras canções: "Dança Mariquinha", e "Impertinente" – ambas instrumentais e de sua autoria. Seu reconhecimento popular como intérprete, no entanto, vem apenas com a gravação de seu 31° disco e após o notório sucesso da canção "Cortando o Pano".

Fotos em exposição no Memorial Luiz Gonzaga
Reprodução

Asa Branca, pela primeira vez

Nos idos de 1947 o Brasil escuta pela primeira vez a canção que viria a se tornar um dos maiores sucessos da MPB, "Asa Branca" - um hit nascido da inspiração na linguagem do povo nordestino. É nesse ano que se dá outro marco de Gonzaga, a adoção do tradicional chapéu de couro – inspirado no cangaceiro Lampião –, que viria a ser sua marca nos shows e apresentações pelo país afora.

Cartaz do filme "Gonzaga, de Pai pra Filho", do cineasta Breno Silveira
Flickr: Everaldo Vilela | Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0) Divulgação Globo Filmes

O sucesso

A partir de 1980 o nome Luiz Gonzaga já é frequentemente relacionado à palavra sucesso. Palavra essa que o levou a cantar uma de suas canções para o Papa João Paulo II, em uma de suas vindas ao Brasil. Em 1984, recebe o primeiro disco de ouro pelo LP "Danado de Bom". No ano seguinte, ganha o prêmio Nipper de Ouro. E, em 1986, participa do festival de música brasileira na França, o Couleurs Brésil. O músico que sofria de osteoporose faleceu em 2 de agosto de 1989, vítima de parada cardiorespiratória, no Recife, capital de Pernambuco. Em 2012 foi lançado o filme "Gonzaga, de Pai pra Filho", do cineasta Breno Silveira. O longa-metragem que aborda a conturbada relação de Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, obteve mais de R$ 2 milhões em sua semana de estreia.