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Os discos brasileiros mais emblemáticos de todos os tempos

Thinkstock/Comstock/Getty Images

Introdução

A música brasileira é reconhecida internacionalmente pela sua qualidade desde o final dos anos 1950. Desde então, uma série de artistas de vários estilos deram a sua contribuição ao conceber discos antológicos. Conceituais ou singelos, poéticos ou raivosos, estes discos fizeram história pela ousadia, pioneirismo ou simplesmente pela união de grandes instrumentistas e compositores de alto quilate. Ao lado do futebol, a música se tornou o principal cartão de visita dos brasileiros em todo o mundo. Conheça um pouco mais dos grandes momentos da música brasileira ouvindo estes discos espetaculares e saiba por que eles são tão incensados.

Festa Discos/Fair use

Canção do Amor Demais - Elizeth Cardoso

Quem ligasse um rádio no Brasil no final dos anos 1950 não teria muitas opções de música, além de sambas, choros e canções aboleiradas. Isto mudou quando a cantora Elizeth Cardoso resolveu gravar um disco com parcerias de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a nova e entrosada dupla de compositores que surgia na época. Composições como “Chega de Saudade” traziam letras românticas, mas sem a dramaticidade dos velhos boleros. As harmonias também pareciam mais sofisticadas. Mas a grande mudança estava mesmo nos arranjos: um violonista baiano tocava com uma batida totalmente diferente, levando as canções a um caminho novo. Era João Gilberto. Estava nascendo a Bossa Nova.

Philips Discos/Fair use

Opinião de Nara - Nara Leão

Em 1964, a Bossa Nova já era uma febre no Rio de Janeiro, especialmente nos bairros elegantes, como Ipanema. A cantora Nara Leão era musa e ao mesmo tempo catalisadora do movimento ao receber em seu apartamento alguns dos maiores nomes da música para animados saraus. Mas ela se cansou daquele bando de jovens bem nascidos: subiu o morro e fez contato com sambistas como Zé Kéti e João do Vale. A intérprete das canções singelas lançou um disco com conteúdo social e político logo no início da ditadura militar. “Opinião de Nara” traz sambas clássicos como “Opinião” e “Sina de Caboclo”, além de canções de Vinícius de Morais e Edu Lobo.

CBS Discos/Fair use

É Proibido Fumar - Roberto Carlos

O capixaba Roberto Carlos Braga já era grande cantor desde criança e arrebentava em qualquer estilo musical. Talvez por isso tenha demorado a encontrar seu verdadeiro caminho como intérprete. Tentou gravar boleros e até bossa nova, mas sem êxito. Até que decidiu apostar no rock and roll à brasileira, inspirado nos Beatles. O disco “Splish Splash”, de 1962, fez grande sucesso e o motivou a seguir aquele caminho. Em 1964 lançou “É Proibido Fumar”, que emplacou canções como a faixa-título e “O Calhambeque”. Roberto se tornou um ídolo da juventude e líder de um novo movimento: a Jovem Guarda, que ganhou até mesmo um programa na então poderosa TV Record.

Blog 96kbps

Tropicália ou Panis et Circencis - Vários

Em 1968 a música brasileira estava dividida entre dois grupos: o dos artistas engajados, com canções de temática social, e o pessoal da Jovem Guarda, embalado pelo rock e canções alienadas. Até que um grupo de artistas decidiu misturar tudo isso e muito mais. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e outros lançaram “Tropicália ou Panis et Circencis”. Com arranjos do maestro Rogério Duprat, o disco traz rock, boleros, samba, poemas concretos e coisas nunca vistas antes. O disco foi rapidamente aceito pelo movimento hippie. Em pouco tempo, o erro gramatical no título (o correto é “circenses”) foi esquecido e o disco apontou uma nova direção para a música brasileira.

Polydor/Fair use

Os Mutantes - Os Mutantes

Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, os Mutantes, já haviam surgido no Festival da Record em 1967, acompanhando Gilberto Gil em “Domingo no Parque” e mostraram seu talento no disco “Tropicália”. Mas tudo isso era pouco para eles. Transbordando ideias, o grupo lançou seu primeiro disco em 1968, denominado simplesmente “Os Mutantes”, e causou uma verdadeira revolução no rock nacional. Com letras debochadas, canções experimentais e muito virtuosismo, eles gravaram canções tropicalistas, composições próprias e uma releitura moderna de um clássico nordestino, “Adeus, Maria Fulô”, de 1951. Beatles e o rock psicodélico compunham algumas de suas principais influências.

Telectra/Philips/Fair use

Construção - Chico Buarque

Chico Buarque surgiu em 1966, ao lançar a canção “A Banda”. Durante toda a década de 1960 se destacou como um músico engajado: compondo e interpretando sambas e canções com temas sociais. Para muitos, era o símbolo da resistência às mudanças trazidas pelo Tropicalismo. Mas o próprio Chico abdicou do posto de “defensor da velha música” ao gravar “Construção”, em 1971. Logo de cara, trouxe o maestro tropicalista Rogério Duprat para fazer os arranjos do disco. A faixa-título, com sua orquestração bela e caótica, chamou a atenção também pela ousadia da letra, com todas as estrofes encerradas com palavras proparoxítonas. “Deus lhe Pague”, “Cotidiano” e “Minha História” são outros clássicos deste álbum.

Audiocred

Clube da Esquina - Milton Nascimento e Lô Borges

No início dos anos 1970, Milton Nascimento era conhecido por “Travessia”, cantada por sua belíssima e potente voz e talento ímpar ao violão. Faltava apenas modernizar sua música. E ele o fez em 1972, com o álbum duplo “Clube da Esquina”. Creditado a ele e ao jovem compositor Lô Borges, o disco é uma obra coletiva que contou com o apoio de vários instrumentistas e compositores de Belo Horizonte. Guitarras distorcidas, riffs de bateria, orquestrações modernas e virtuosismo faziam companhia a letras engajadas, cancioneiro latino-americano e psicodelia. Músicas como “O Trem Azul”, “Tudo o Que Você Podia Ser” e “Nada Será Como Antes” colocam esse álbum como um dos melhores da História.

Trama/Fair use

Tim Maia Racional, Volume 1 - Tim Maia

Desde jovem, Tim Maia mostrou intimidade com a música negra norte-americana e o rock and roll. Ele uniu estes ingredientes à malemolência da música brasileira em seus ótimos primeiros discos. Em 1974, ele preparava um novo trabalho quando se tornou um seguidor da seita filosófico-religiosa Cultura Racional. O resultado é “Tim Maia Racional – Volume 1” concluído em 1975. Todas as letras trazem citações à Cultura Racional e ao livro “Universo em Desencanto”, causando espanto nos fãs. Mas a base musical era de uma qualidade excepcional, inspirado no soul e no funk. O álbum seria execrado pelo próprio Tim Maia anos depois, ao deixar a seita da qual participava.

Discus Marcus Pereira/Fair use

Cartola (1976) - Cartola

Cartola já era uma personalidade consagrada no mundo do samba e do Carnaval nos anos 1970, quando gravou seus primeiros discos. O primeiro trabalho, de 1974, trazia pérolas como “Disfarça e Chora” e “Corra e Olhe o Céu”. Mas seu grande momento foi no álbum seguinte, simplesmente denominado “Cartola”, assim como o anterior. Ao menos três dos maiores sambas da história estão lá: “O Mundo É um Moinho”, “As Rosas Não Falam” e “Cordas de Aço”. Suas composições belas e rebuscadas marcaram época e fizeram com que o samba voltasse a ser valorizado como um símbolo da música brasileira, a exemplo do que acontecia no início do século 20.

EMI/Fair use

Dois - Legião Urbana

O rock se tornou uma grande febre no Brasil da década de 1980. Dezenas de bandas ganharam as paradas e venderam centenas de milhares de discos. Nesta seara, nenhuma se destacou mais que a Legião Urbana. O grupo era liderado por Renato Russo, cantor de potência vocal invejável e letrista de mão cheia. O primeiro disco, de 1985, trazia forte influência de bandas britânicas e se tornou um enorme sucesso. Mas o auge, tanto em popularidade quanto em qualidade, veio no álbum “Dois”, de 1986. Canções como “Fábrica”, “Quase Sem Querer” e “Índios” mostravam que Renato Russo era perfeito tanto para compor músicas políticas quanto canções de amor. O rock nacional atingia, finalmente, a maioridade.

CHAOS/Fair use

Da Lama ao Caos - Chico Science & Nação Zumbi

As bandas de rock que deram as cartas nos anos 1980 começaram a perder força na década seguinte. Agora, uma nova geração de músicos buscava um lugar ao sol, misturando rock com ritmos brasileiros. O grupo que mais se destacou foi Chico Science & Nação Zumbi, principal expoente do Manguebit, um movimento musical criado no Recife. Logo em seu primeiro disco, “Da Lama ao Caos”, de 1994, o grupo se destacou pela mistura de pop com maracatu ao reunir batidas afro, efeitos eletrônicos e psicodelia. O carisma de Chico Science reforçava a relevância de músicas como “Computadores Fazem Arte”, “Rios, Pontes e Overdrives” e a faixa-título.

Cosa Nostra/Fair use

Sobrevivendo no Inferno - Racionais MC's

Os Racionais MC’s foram criados no final dos anos 1980 por Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edy Rock. Com letras contundentes retratando o duro cotidiano da periferia de São Paulo, o grupo se tornou referência para os amantes do rap. O grande salto veio com o quarto disco, “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997. Canções como “Capítulo 4, Versículo 3”, “Mágico de OZ” e “Fórmula Mágica da Paz” os transformaram em cronistas oficiais da periferia. Outro grande sucesso do disco foi a canção “Diário de um Detento”, composta por um presidiário, narrando o massacre na Penitenciária do Carandiru. Destaque também para a versão de “Jorge de Capadócia”, clássico de Jorge Ben Jor.