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Dominguinhos: vida e obra do mestre do forró

TV Globo / Bob Paulino

Introdução

Maior sanfoneiro do Brasil, legítimo herdeiro do mito Luiz Gonzaga. Este é Dominguinhos, um dos grandes nomes da música popular brasileira das últimas décadas. Conhecido por levar o xote, baião e forró a todo o Brasil, também ajudou a levar influências de vários gêneros musicais ao Nordeste e aos tocadores de sanfona. Gravou mais de 50 discos, compôs trilhas sonoras para filmes e se consolidou como um mestre de seu instrumento. São dele algumas das mais populares canções brasileiras como “Eu quero um xodó”, “Lamento Sertanejo”, “Isso aqui tá bom demais” e “De volta pro meu aconchego”. Conheça um pouco mais da obra deste grande artista.

Arquivo

Nascimento e infância

Dominguinhos, registrado como José Domingos de Moraes, nasceu em 12 de fevereiro de 1941 em Garanhuns (PE). Era filho de um conhecido sanfoneiro da região, o mestre Chicão, que também era afinador de sanfonas. Em uma casa recheada de música, tomou gosto desde cedo pela sanfona. Ganhou a primeira, de oito baixos, quando tinha apenas seis anos de idade. Não demorou para que começasse a tocar em feiras e próximo a hotéis e pousadas. Com dois irmãos, formou o grupo "Os Três Pinguins", arrecadando dinheiro para ajudar no apertado orçamento doméstico com suas apresentações. Já nessa época, passou a dominar o instrumento.

TV Globo / CEDOC

Encontrando o ídolo

Aos nove anos de idade, em 1950, o pequeno José teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, seu grande ídolo, Luiz Gonzaga, em frente a um hotel. O artista ficou impressionado com as qualidades musicais do jovem sanfoneiro e o convidou para ir ao Rio de Janeiro, onde poderia seguir com a carreira musical. O garoto adorou o convite, mas só pôde atendê-lo quatro anos depois, quando rumou à cidade maravilhosa acompanhado do pai e dois irmãos. Foram morar na cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Ao reencontrar Luizão, ganhou um acordeon e passou a integrar a banda dele.

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Início promissor

Ainda adolescente, José adotou o nome artístico de Neném do Acordeon. Ao lado de Luiz Gonzaga, tocou em vários shows Brasil afora. Paralelamente, se apresentou em bares, cassinos e boates do Rio de Janeiro e várias outras cidades. No início dos anos 1960, sua fama extrapolou o circuito da música regional nordestina. Em pouco tempo, já era visto ao lado de músicos da bossa nova, participando de vários concertos. Neste período, passou a ser conhecido como Dominguinhos, uma sugestão de seu ídolo. Para ele, o primeiro nome não ajudaria sua carreira artística. Como se verá, o mestre tinha toda a razão.

Reprodução

O primeiro disco

A década de 1960 foi muito prolífica para Dominguinhos. Nos primeiros anos, deixou um pouco de lado o forró e passou a se aprimorar em valsas, boleros e na bossa nova, tocando para os mais diferentes astros da música. Mas pouco depois veio a grande oportunidade de gravar seu primeiro disco. Em 1964 foi convidado a lançar um LP, com músicas voltadas ao público nordestino. Era o artista voltando aos xotes, baiões e forrós de sua infância e adolescência. “Fim de Festa” saiu pelo pequeno selo Cantagalo. Aquela permaneceria sendo sua casa, de onde nasceram outros seis álbuns, até 1974.

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Anastácia, a grande parceira

Em 1967, Dominguinhos voltou ao Nordeste, integrando a banda de Luiz Gonzaga. Nesta excursão, assumiu os papéis de sanfoneiro e de motorista, circulando por várias cidades do país. Foi nesta viagem que conheceu aquela que seria sua primeira grande parceira musical: a cantora Anastácia. Juntos, compuseram mais de 210 canções. A união extrapolou o campo artístico e se consolidou como um namoro, que acabou resultando em casamento. Foi ainda no final da década de 1960 que ele assinou contrato com a Rádio Nacional, o que ajudou a aumentar ainda mais sua popularidade. Definitivamente, ele se tornara um músico de prestígio em todo o território brasileiro.

TV Globo / Renato Rocha Miranda

Amigo da Tropicália

Depois de se enturmar com o pessoal da Bossa Nova, chegava a vez de conhecer de perto outro grande movimento musical: a Tropicália. A partir da gravação de seu primeiro disco, conheceu Gilberto Gil, com quem passou a tocar e compuseram juntos “Lamento Sertanejo”, entre outros. Em pouco tempo, se juntou a outros baianos: Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Mas não se ligou apenas aos tropicalistas: participou de vários shows e gravações com outros artistas populares da época. Em todos os lugares em que se apresentava, fazia questão de usar o chapéu de couro característico do sertanejo nordestino.

TV Globo / Bob Paulino

Reconhecimento internacional

Já famoso em todo o Brasil, Dominguinhos começou aos poucos a obter fama internacional, graças ao seu indiscutível talento como acordeonista. Em 1972, foi convidado pelo empresário Guilherme Araújo para acompanhar Gal Costa no prestigiado festival Midem, em Cannes (França). Essa apresentação foi fundamental para que ficasse conhecido fora do país, o que lhe valeu grandes dividendos. Várias de suas composições ganharam versões em outros idiomas. “Eu só quero um Xodó”, sua principal parceria com Anastácia, já foi gravada em inglês, italiano e até mesmo em holandês! Era o forró ganhando cada vez mais territórios, em plena década de 1970.

Reprodução

Novo salto de popularidade

Se os anos 1970 foram produtivos para Dominguinhos, a década seguinte seria ainda mais proveitosa. Novas parcerias o tornaram ainda mais conhecido no país inteiro. Foi nesse período que surgiram alguns de seus maiores sucessos, como “Gostoso Demais”, "De volta pro meu aconchego" e "Isso aqui tá bom demais", todas em parceria com Nando Cordel. Esta última chegou a ser gravada por Chico Buarque, outro novo parceiro, com quem compôs "Tantas palavras". O artista passava a frequentar não só as rádios, mas também as trilhas sonoras de novelas e até do cinema: "Esse mato, essa terra", foi incluída na seleção musical do filme "Aventuras de um Paraíba" (1982), dirigido por Marco Altenberg.

TV Globo/Zé Paulo Cardeal

Novos projetos

O estrondoso sucesso na década de 1980 fez com que Dominguinhos ganhasse cacife para bancar vários projetos pessoais nos anos seguintes. Em 1993 mostrou seus dotes de mecenas da cultura ao criar o "Projeto Asa Branca", que levou shows de MPB para várias cidades em todo o Brasil. Outro sonho foi gravar um grande disco tributo a Gonzagão, seu grande ídolo, mestre e inspirador. Em 1997, reuniu um time de feras como Gilberto Gil, João Bosco, Djavan e Chico Buarque no álbum duplo "Dominguinhos e convidados cantam Luiz Gonzaga”. Dois anos depois gravou "O riacho do imbuzêro", que trazia uma peculiaridade: a letra havia sido escrita décadas atrás por Zé Dantas, morto em 1962.

Reprodução

Sempre em atividade

Dominguinhos continuou trabalhando sem parar nos anos seguintes. Em 2000 lançou mais um disco, desta vez ao vivo, trazendo seus maiores sucessos. No ano seguinte, recebeu uma justíssima homenagem no 11º Festival de Inverno de Garanhuns, sua cidade natal. Em 2005, gravou um disco antológico com Sivuca e Oswaldinho do Acordeon, “Cada um Belisca um Pouco”. Não era pouca coisa: os três maiores sanfoneiros do Brasil ainda em atividade na época se juntavam para um grande álbum. Em 2010, trabalhou com outro grande virtuose, o violonista gaúcho Yamandú Costa. Juntos, gravaram o disco “Lado B”, com um repertório que ia de Pixinguinha a Ary Barroso, além de composições próprias.

Flickr: Rita Barreto / Turismobahia

O silêncio da sanfona

No dia 23 de julho de 2013, depois de uma internação de vários meses para tratar um câncer de pulmão, Dominguinhos faleceu no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, aos 72 anos. O príncipe do baião silenciou sua sanfona, porém deixou a seus fãs e admiradores uma obra composta por mais de 30 discos, e um legado inestimável para a música popular brasileira.