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Existe brincadeira de menino e brincadeira de menina?

Cientistas americanos concluíram que há predisposição natural para meninos buscarem certos brinquedos e meninas, outros
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Introdução

Há alguns anos, um menino jamais brincaria com boneca. Quem ousasse era repreendido e se tornaria motivo de preocupação familiar. O mesmo acontecia com a menina que quisesse jogar futebol. A família acreditava que as brincadeiras poderiam interferir na sexualidade e, desde cedo, "ajustavam" a criança. Hoje, há maior liberdade para os pequenos se divertirem. Mesmo assim, os pais ainda se perguntam: existe mesmo brinquedo de menino e de menina?

Brincar é uma forma organizada de se expressar
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Genética

Mesmo no século 21, ainda existem pais que ficam inseguros ao ver o filho com uma boneca nas mãos. A questão é sempre associada à sexualidade e gera muitas dúvidas. Mas o que define as escolhas dos brinquedos por parte das crianças? Alguns fatores influenciam, e o primeiro deles é a constituição genética. Em pesquisa feita com 30 bebês entre três e oito meses, na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, caminhões e bonecas colocados dentro de uma caixa foram oferecidos a eles. A maior parte dos meninos buscou naturalmente os caminhões.

Na tentativa de evitar impor papéis às crianças, alguns pais e educadores vão além e defendem a educação sem diferença entre os gêneros
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Brincadeiras mais brutas

Os fatores biológicos também contam. Meninos apresentam produção de testosterona desde a gestação até os primeiros meses de vida. "Isso parece ter influência na personalidade, tornando-os mais ativos e até um pouco mais agressivos. Mas esse desenvolvimento da personalidade nas crianças envolve ainda muitos gens", explica a pediatra Camila Richieri Gomes. Nos garotos, a área cerebral que corresponde aos conceitos lógicos é mais rapidamente desenvolvida. Dessa forma, brinquedos de montar e de organização vão atraí-los bastante. Ao crescerem, tornam-se fisicamente mais fortes e agitados e se divertem com atividades físicas e intensas e competições.

O faz-de-conta permite à criança lidar com problemas que enfrenta no dia a dia
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Brincadeiras mais tranquilas

Outro aspecto físico que influencia nessa diferenciação é a coordenação motora. Nos garotos, ela é ampla e ocorre mais rapidamente. Nas meninas, a coordenação motora é mais fina, estimulando habilidades manuais. Elas também se desenvolvem primeiro na fala, na conexão com sentimentos e apreciação de detalhes. "Por isso, as meninas preferem brincadeiras envolvendo relacionamentos e cuidados com os outros, o que as leva a gostar de bonecas", aponta Camila.

Brinquedo de menino ou menina é um status cultural
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Aspectos sociais

Pais e pessoas que cercam a criança acabam também influenciando a opção por brinquedos tipificados por gênero. No convívio, os pequenos aprendem a distinguir o que a sociedade define como masculino e feminino. A família reforça isso, selecionando e comprando brinquedos capazes de produzir comportamentos considerados adequados a cada sexo. Nesse processo criam-se os estereótipos, como a cor azul para menino e o rosa para menina. E a indústria e o marketing de brinquedos reforça essa concepção.

Nas brincadeiras, os meninos não assumem o papel das meninas, nem elas os dos meninos
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Masculino e feminino

Pesquisas apontam uma maior distinção de brinquedos por gênero a partir dos anos 1980, quando foram retiradas certas limitações que regulamentavam a publicidade infantil na televisão dos Estados Unidos. Empresas como a Disney, com a marca Princesas, e a LEGO, com bonequinhos apresentando barba ou batom, trataram de segmentar o mercado. Brinquedos neutros como blocos de montar passaram a ser diferenciados pela cor da embalagem, apresentando uma embalagem para menino e outra, para menina. O objetivo era que os pais comprassem em dobro o mesmo produto, um para o filho e outro, para a filha.

A partir dos quatro anos, os meninos tendem a evitar mais as "atividades de menina"
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O gênero dos brinquedos

Mas se sempre houve essa divisão das brincadeiras, seria correto então afirmar que brinquedo tem sexo? "Não, brinquedo tem a função de ensinar, entreter e divertir, tenha a criança o sexo que tiver", explica Camila. Ela alerta que pais e professores precisam conduzir a brincadeira infantil com esse olhar, entendendo que ela tem o propósito de estimular o desenvolvimento neurológico, motor e social da criança. Também não devem podar a imaginação dos pequenos e, sim, procurar estimulá-los a descobrirem o que gostam, ensinando sempre a respeitar quem está ao seu lado.

A diferença do cérebro masculino e feminino se dá ainda dentro do útero, apontam pesquisas recentes
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Mudanças sociais

Na verdade, quem especifica se um brinquedo é para menino ou menina é o adulto. Ao brincar de boneca ou casinha, essa atividade lúdica não determina a identidade ou orientação sexual de um garoto. "A inversão de papéis existe apenas na cabeça do adulto", afirma a psicóloga Ana Paula Cavaggioni. A diferenciação da brincadeira é algo instituído socialmente. E como os papéis sociais estão mudando, hoje a mãe sustenta e o pai também dá mamadeira ao bebê. "É natural que a menina queira brincar de carrinho e o menino de boneca", explica a psicóloga.

Por volta dos três ou quatro anos de idade, a identidade de gênero da criança já está definida
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É de menino ou menina?

Muitos pesquisadores do desenvolvimento infantil têm dedicado seu tempo a estudar essas diferenças de gênero. Susan Witt, professora de desenvolvimento infantil da Universidade de Akron, em Ohio, observou que os pais tendem a falar com mais ternura quando lidam com as filhas do que com os filhos. Dessa forma as diferenças de comportamentos sociais vão se estabelecendo. Pesquisas apontam que esses estereótipos de gênero sobre as brincadeiras já estão presentes nas próprias crianças, desde a fase pré-escolar e, na média infância, se aproxima do pensamento do adulto.

Mesmo brincando com "brinquedos do outro sexo", as crianças se colocam no gênero a que pertencem
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Liberdade de escolhas

As crianças podem e devem brincar com o que desejarem. "Os pais precisam se tranquilizar e permitir que os filhos escolham seus brinquedos com liberdade, sem padrões sociais estereotipados que muitas vezes funcionam como entraves para o desenvolvimento da criança", diz a psicóloga Ana Paula Cavaggioni. Existem preferências determinadas pelos fatores biológicos e sociais, mas a criança é quem decide com o que quer brincar. Com o passar do tempo, as atividades vão se diferenciando de acordo com características individuais.

Em 2013, apenas um terço das lojas na Grã Bretanha ainda separava os brinquedos por gênero
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Mudanças à vista

Recentemente, o site de vendas Amazon retirou da seção de brinquedos a opção de busca por categoria "menino" e "menina". A empresa agora procura agrupar por faixa etária, misturando bonecas com carrinhos. Isso se deve à ação de grupos que defendem a liberdade de escolha. Na era da tecnologia, em que meninos e meninas brincam e se reúnem em torno do mesmo videogame ou dos jogos de computador, parece mais do que natural não haver tanta discussão sobre o que é para um ou para outro sexo.