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Filmes essenciais para entender o cinema brasileiro

Doug Menuez/Photodisc/Getty Images

Introdução

A história do cinema brasileiro é antiga e seus primeiros registros datam dos primórdios da própria invenção do cinematógrafo, como era conhecido no final do século XIX. Em mais de 100 anos, atores, produtores, diretores e roteiristas trabalharam com muito suor e talento para criar uma cultura cinematográfica no país. No período, surgiram filmes de ação, aventura, romance, dramas, comédias e musicais de grande qualidade. Vários movimentos, como a Chanchada, o Cinema Novo ou a Boca do Lixo, cavaram seu lugar na história. Confira 15 destes filmes, que são fundamentais para entender a alma da sétima arte em terras tupiniquins.

Hemera Technologies/AbleStock.com/Getty Images

Limite

O primeiro grande filme brasileiro foi gestado no final da era do cinema mudo. “Limite”, do diretor Mário Peixoto, foi exibido pela primeira vez em 1931, no Rio de Janeiro. Ousado para a época e o lugar, a produção mostra um homem e duas mulheres que estão em um barco à deriva. Aos poucos, vão sendo contadas as histórias de desencontros dos três personagens, em uma narrativa existencialista e desamparada. Abandono, traições, suicídio e outros temas pesados causaram polêmica na época, mas a grande inovação são os recursos fotográficos e cenográficos. “Limite” ficou esquecido por quase 40 anos, até que a fita original foi recuperada.

Shaun Botterill/Getty Images Sport/Getty Images

Rio, 40 Graus

Em meio a uma onda de filmes musicais ou com temática mais amena, “Rio, 40 Graus” chamou a atenção. Lançado em 1955, foi o primeiro dos vários clássicos produzidos pelo diretor Nelson Pereira dos Santos. O filme é uma mistura de ficção com documentário e mostra a vida de cinco meninos que vivem em uma favela. Em um domingo de calor intenso, vendem amendoins para ajudar no sustento da família e seguem para vários lugares, como Copacabana, o Pão de Açúcar e o estádio do Maracanã. O realismo dá o tom do filme, que mostra o cotidiano dos cariocas nos últimos anos como Capital Federal. A produção inspirou o surgimento do movimento Cinema Novo.

Jupiterimages/Brand X Pictures/Getty Images

O Homem do Sputnik

Entre as décadas de 1930 e 1960, o cinema brasileiro foi quase que totalmente dominado pela chanchada, um gênero de filmes musicais, com um humor pastelão e um tanto ingênuo, não raro trazendo sátiras a algum filme ou acontecimento. Os grandes nomes desta leva são o diretor Carlos Manga e o ator Oscarito, que trabalharam juntos em várias produções. Um exemplo clássico é o “O Homem do Sputnik”, produzido em 1959. Um homem acredita que o satélite russo Sputnik 1 caiu no telhado de sua casa. Por causa dessa suspeita, ele passa a ser perseguido por vários espiões. O filme, como tantos outros produzidos pela Atlântida na época, foi um estrondoso sucesso.

Visage/Stockbyte/Getty Images

O Pagador de Promessas

Marco do cinema brasileiro, “O Pagador de Promessas” foi dirigido por Anselmo Duarte em 1962 e mostra a saga de um homem que carrega uma pesada cruz, em um longo percurso, para pagar uma promessa a Santa Bárbara. Ao chegar a Salvador, não consegue colocar a cruz no interior de uma igreja, pois o pároco descobre que a promessa foi feita em um terreiro de candomblé. Mostrando os conflitos religiosos, sociais e também os contrastes entre o Brasil urbano e rural, o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1963. No mesmo ano, foi indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira, feito inédito até então para o país.

Goodshoot/Goodshoot/Getty Images

Vidas Secas

Outro dos grandes clássicos do diretor Nelson Pereira dos Santos, “Vidas Secas” é baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos. Produzido em 1963, conta a história de uma família de retirantes nordestinos, que vagueia pelo sertão em busca de recursos para a sobrevivência. Encontram pelo caminho o preconceito, a fome, a dor e a morte. O filme é cortante, direto e, com o perdão do trocadilho, seco: tem raros diálogos, tomadas longas e enquadramentos que aumentam a dramaticidade dos acontecimentos. A inspiração do neorrealismo italiano é flagrante nesta obra, que segue sendo um dos melhores trabalhos já feitos no cinema nacional.

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Todas as Mulheres do Mundo

Em 1966, o Brasil fervia politicamente e os embates ideológicos invadiam o cenário cultural, incluindo o cinema. Em meio a várias produções com forte conteúdo político, surgiu um filme que falava de relacionamentos e dilemas cotidianos. “Todas as Mulheres do Mundo” foi dirigido por Domingos de Oliveira e trazia a história de Paulo. Em conversa com o amigo Edu, ele narra os prazeres e desventuras de sua relação com a bela Maria Alice, enquanto relembra conquistas anteriores. Inspirado nos títulos franceses da Nouvelle Vague, foi taxado pelos cineastas politizados como “pequeno-burguês”. No entanto, antecipou tendências, trouxe inovações e segue moderno até hoje, mais de 40 anos depois.

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Terra em Transe

Nos anos 60, o grande movimento cinematográfico em voga era o Cinema Novo. Movidos pelo lema “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, vários cineastas traziam filmes politizados, com um discurso social forte e menor custo de produção. O mais célebre autor do gênero foi Glauber Rocha, que criou uma verdadeira revolução com uma linguagem alegórica da realidade, sem deixar de ser crítico e contundente. “Terra em Transe”, de 1967, é um exemplo do quão impactante foi seu legado. O filme transcorre na fictícia República de Eldorado, onde um jornalista engajado busca encontrar uma liderança política que mude o país, mas acaba se desiludindo. Qualquer semelhança com o próprio Brasil de então não é mera coincidência.

Vince Bucci/Getty Images Entertainment/Getty Images

Dona Flor e Seus Dois Maridos

Se os anos 60 pertenceram ao Cinema Novo, a década seguinte foi tomada por produções totalmente diferentes: o foco eram as pornochanchadas, comédias carregadas de conteúdos eróticos. Mesmo os dramas usavam e abusavam da sensualidade. Um bom exemplo é “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por Bruno Barreto em 1976 e baseado no livro homônimo de Jorge Amado. Flor é uma bela mulher casada com um notório malandro, que morre precocemente. Ela se casa novamente, desta vez com um homem recatado, mas o fantasma do primeiro marido volta para “manter” o casamento. A beleza de Sônia Braga (foto) e a história picante transformaram o filme na maior bilheteria do cinema brasileiro por 34 anos.

Jupiterimages/BananaStock/Getty Images

A Dama do Lotação

Outro filme baseado na obra de um grande escritor brasileiro, “A Dama do Lotação” foi dirigido por Neville de Almeida e chegou aos cinemas em 1978. Adaptado de um conto de Nelson Rodrigues, também traz Sônia Braga como protagonista. Ela vive Solange, uma mulher recém-casada que sofre um trauma em sua noite de núpcias e não consegue prazer com o marido. Então, ela busca se satisfazer sexualmente com desconhecidos, que encontra em seus passeios pelo transporte público. A beleza e sensualidade latentes da atriz entusiasmaram toda uma geração. As cenas de sexo, que eram ousadas para a época, são a cereja do bolo.

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A Princesa Xuxa e os Trapalhões

Quem fosse aos cinemas nos anos 80, em busca de produções brasileiras, não encontraria muitas opções além de comédias infantis. Nesse meio, o domínio era total dos Trapalhões, o mais famoso grupo humorístico do país. No futuro, esse trono seria ocupado pela apresentadora infantil Xuxa (foto), conhecida como a Rainha dos Baixinhos. Em 1989, houve o encontro de gerações em “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”, dirigido por José Alvarenga Jr. No planeta Antar, o diabólico Ratan toma o poder e escraviza todas as crianças. Para derrotá-lo, um grupo de príncipes enfrentará todos os perigos e tentará convencer a Princesa Xeron dos problemas que ocorrem no reino.

Hemera Technologies/Photos.com/Getty Images

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil

A primeira metade dos anos 90 foi marcada pela agonia do cinema nacional. Com o fim da Embrafilme, ficou praticamente inviável, para muitos realizadores, lançar novos filmes. Até que uma conhecida atriz resolveu estrear como diretora. Carla Camurati produziu “Carlota Joaquina, a Princesa do Brazil”, uma grande sátira dos costumes brasileiros, tendo como pano de fundo a vinda da família real portuguesa ao Brasil. O rei D. João IV é apresentado como fraco, medroso e de inteligência débil, enquanto sua esposa Carlota Joaquina é ambiciosa, infiel e golpista. O grande sucesso fez com que a película fosse o ponto de partida para o renascimento da produção cinematográfica brasileira: chegam os tempos da Retomada.

Sean Gallup/Getty Images Entertainment/Getty Images

Central do Brasil

O diretor Walter Salles já havia dirigido vários trabalhos, quando lançou “Central do Brasil”, em 1998. O filme mostra a história de Dora, uma mulher que trabalha em uma estação ferroviária escrevendo cartas para pessoas analfabetas. Ao encontrar um órfão de 9 anos, sem ter onde ir, ela decide ajudá-lo a encontrar seu pai, no sertão nordestino. Este road movie sentimental foi um grande sucesso de público e principalmente de crítica. Salles e a atriz Fernanda Montenegro (foto) ganharam vários prêmios, incluindo o Urso de Ouro e Prata, respectivamente, no Festival de Berlim em 1998. No ano seguinte, ambos foram indicados ao Oscar, nas categorias Melhor Filme Estrangeiro e Melhor atriz.

Ian Gavan/Getty Images Entertainment/Getty Images

Cidade de Deus

Mais importante produção da Retomada, “Cidade de Deus” foi lançado em 2002 por Fernando Meirelles (foto) e Kátia Lund. Adaptação do livro homônimo de Paulo Lins, mostra a gênese do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. O filme narra a vida de dois jovens, o pacato Buscapé, que sonha em ser fotógrafo, e o assaltante Dadinho, que muda de nome para Zé Pequeno e se torna o maior criminoso de Cidade de Deus. A película é uma revolução na forma e no conteúdo: apresenta tomadas rápidas e vertiginosas, efeitos visuais nos movimentos de câmera e cores estouradas. Recebeu quatro indicações ao Oscar (direção, roteiro adaptado, fotografia e edição) em 2004.

TV Globo / Willian Andrade

Se eu Fosse Você

A comédia romântica foi um dos gêneros mais evocados da Retomada. O número de produções explodiu consideravelmente e muitos se tornaram grande sucesso de público. Geralmente enfocando o dia-a-dia de famílias e profissionais de classe média, o filme de maior sucesso é “Se Eu Fosse Você”, dirigido por Daniel Filho. Casados, um publicitário e uma professora de música passam a discutir frequentemente, até que misteriosamente trocam de corpos. A partir de então, cada um deles passa a sentir na pele os problemas do outro. Graças às ótimas interpretações de Tony Ramos e Glória Pires (foto), o filme foi um sucesso de público e ganhou uma sequência, que obteve ainda mais êxito de bilheteria.

Pascal Le Segretain/Getty Images Entertainment/Getty Images

Tropa de Elite

Após “Cidade de Deus”, vários filmes policiais chegaram aos cinemas, como “Carandiru” e “Quase dois irmãos”. Mas nenhum foi tão impactante quando “Tropa de Elite”, de 2007. Ao contar a história do Capitão Nascimento, um oficial do Bope que procura um substituto, o diretor José Padilha (foto) tratou de assuntos espinhosos: a tortura praticada por policiais, a corrupção da PM e o envolvimento de entidades assistenciais com o tráfico de drogas. O filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2008. Dois anos depois, foi filmada a sequência, ainda melhor e mais contundente, e que se tornou a produção brasileira de maior bilheteria da história, superando “Dona Flor e Seus Dois Maridos”