A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino

Escrito por paul costello Google | Traduzido por josé antonio arantes castro
  • Compartilhar
  • Tweetar
  • Compartilhar
  • Pin
  • E-mail
A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(DC_Colombia/iStock/Getty Images)

Acredito que há três caminhos para enfrentar uma situação de grande sofrimento. Você pode apagar tudo, pode se tornar a vítima ou pode fazer o que uma ostra faz, abraçar o ferimento e transformá-lo em uma pérola.

— Miguel Savage

Miguel Savage sobreviveu à guerra e ele nunca irá esquecer isso. Leia a história de como ele enfrentou suas experiências traumáticas e como cresceu para compreendê-las. Em 1982, a Grã-Bretanha e a Argentina entraram em guerra por dois meses e meio pelas Ilhas Malvinas - conhecidas como Las Malvinas pelos espanhóis. Miguel tinha 19 anos de idade e fez parte do exército sulamericano porque estava servindo naquele ano. Sem sequer saber como atirar, ele se achou longe de casa, em meio à guerra e vivendo dia e noite em um buraco no solo. Miguel é um sobrevivente e conta sua história com as próprias palavras.

O que vêm a sua mente quando você pensa sobre o primeiro dia que você pôs os pés na fazenda nas Ilhas Malvinas?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Hulton Archive/Hulton Archive/Getty Images)

Hipertermia e má nutrição. Nós tínhamos seis soldados que atiraram no próprio pé em uma tentativa desesperada de voltar para casa. Mais quatro morreram depois de pisar em nossas próprias minas, enquanto escapavam para roubar comida. Depois, eles me mandaram com cinco soldados e um sargento para uma pequena casa do outro lado do rio Murrell. A missão era verificar o local. Nós sabíamos que eles tinham nos colocado em linhas britânicas. Eles já estavam lá, prontos para nos atacar. Nós éramos como patos em uma lagoa cheia de caçadores. Descobri, anos depois, que eles não atiraram em nós para que não perdessem o elemento surpresa.

Você fala inglês?

Sim, eu falo inglês desde que eu era um garoto. Foi por isso que eles me mandaram em missão, me mandaram como intérprete. A missão era falar para a população da ilha e persuadí-los a sair da casa. Se eles resistissem, nós poderíamos lutar. Nós cercamos a casa e eu pensei em como pegar comida e um casaco, nem lembrei do perigo. Eu fui o primeiro a entrar. Fui gritando para que saíssem. Quando vi que não havia ninguém ali, relaxei e comecei a tomar conta dos meus arredores. Comecei a sentir um cheiro que parecia familiar. A vista da janela era maravilhosa. O rio que fluía até a cidade estava alheio à guerra que ocorria. Na verdade, era o último lugar que eu imaginava estar em meio de uma guerra.

No mesmo momento, eu estava desesperado para tirar minhas roupas molhadas. Notei um amável moletom em uma cômoda. Peguei-o e senti seu cheiro de limpeza, perfume e de casa. Eu estava congelando em um buraco fétido no chão e aquilo levantou minha dignidade. Tirei minhas roupas e coloquei o moletom, me senti mais forte. Lembro-me de comer dois pedaços de pão com manteiga. Senti-me desesperado, comi como um cachorro. Eu comecei a sentir alguma coisa, como uma presença. Era como ter alguém dentro da casa me dizendo: "Não resta muito tempo, Miguel. Você vai voltar, vai viver". Isso era 5 ou 6 de junho e a rendição veio dia 14. Tive a ideia de um dia voltar (para a fazenda) para ver o que era. Eu já tinha planejado voltar.

Muitas pessoas podem fugir de uma experiência desagradável, mas você escolhe se lembrar dela, e a guarda com você. O que pode ser aprendido com isso?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Jeffrey Layton/iStock/Getty Images)

Acredito que há três caminhos para enfrentar uma situação de grande sofrimento. Você pode apagar tudo, pode se tornar a vítima ou pode fazer o que uma ostra faz, abraçar o ferimento e transformá-lo em uma pérola.

Você optou pela terceira opção?

Sim.

Sempre?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Hulton Archive/Hulton Archive/Getty Images)

Não, eu tentei contê-la por 20 anos.

Qual foi o gatilho que o trouxe a superfície depois de 20 anos?

A crise econômica e social da Argentina em 2001. Eu tinha negócios que construí com muito esforço. Estava muito estressado por perder tudo por causa de problemas econômicos. Naquele ponto, eu tive meu primeiro pesadelo sobre a guerra.

Você nunca havia sonhado com as malvinas antes disso?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Peter Macdiarmid/Getty Images News/Getty Images)

Não até aquele momento.

Essa foi uma experiência que você não pode apagar de sua memória?

Não, sobretudo está o estresse pós traumático. Foi instintivo bloquear e tentar esquecer, mas eventualmente tive que enfrentar a situação.

Sobre o que você sonhou?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Chris Jackson/Getty Images Entertainment/Getty Images)

Que eu estava dentro de um buraco com um morto e que as bombas estavam caindo. Dentro do sonho um celular estava tocando. Era o gerente do banco me falando: "Estou fechando sua conta porque você tem muitos cheques voltando". Acordei gritando e naquele dia e fui à terapia. Depois das aulas de teatro, corrida, e tratamento, eu comecei a depender de pessoas generosas. No final, eu percebi que tinha segurado as rédeas. Eu tinha o controle, como quando nós estávamos no buraco e tinha que tomar decisões para não morrer.

Você pensou que tinha o controle até 2001?

Sim e eu tinha realmente voltado às ilhas em 2000 e estava dizendo a mim mesmo: "Isso não me afeta, estou encarando tudo".

Como foi quando você encontrou Sharon Mulkenbuhr, a filha do casal que vivia na fazenda Murrell quando você entrou nas Malvinas?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Hemera Technologies/AbleStock.com/Getty Images)

Ela vivia na cidade durante a minha primeira viagem de volta em 2000. Foi um encontro impressionante, porque primeiramente ela expressou toda a sua angústia. Continuava nervosa com tudo e queria que eu soubesse disso. Escutei-a em silêncio e depois disse a ela como me sentia. Ela entendeu que tive boas intenções e acabamos nos abraçando e bebendo um chá. Trocamos endereços. Disse a ela que eu continuava com o moletom, mas não o havia trazido comigo.

É verdade que você tem o moletom emoldurado?

Um amigo o fez, igual quando você emoldura camisetas de futebol americano.

Mas para você, ele não é um troféu?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Getty Images/Getty Images News/Getty Images)

Não, não para mim. Era um bela lembrança de um momento crucial da minha vida, onde eu me senti protegido. Durante minha segunda visita, em 2006, eu devolvi o moletom com um bilhete de agradecimento. Entreguei-o à irmã da Sharon, Lisa.

Quando olha para o passado, você acha que conta a história de forma diferente à medida que o tempo passa?

A história é basicamente a mesma, mas continuo encontrando mais mensagens de crescimento pessoal. O principal foi o que aconteceu quando voltei. Entrei em um estado que chamei de "a euforia do sobrevivente". Durante os primeiros dias, meu corpo estava subnutrido. Perdi 20 quilogramas e estava em um estado de euforia, no qual aproveitei apenas por estar vivo. Eu coloquei o despertador para acordar cedo, pensei que não tinha mais nada para fazer além de estar vivo. Tudo me movia. Coisas simples, como música, visitas da família, o cheiro de grama recém cortada e até as cores da televisão.

O que aconteceu quando o sentimento de euforia começou a desaparecer?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Getty Images/Getty Images News/Getty Images)

Quando voltei eles seguraram uma parte minha em casa. Me perguntavam seu eu tinha matado alguém e coisas similares. Tinha vontade de contar a eles que aprendi a escutar, que eu tinha aprendido a importância do contato humano e valeres de pequenas coisas. Eles me diriam "bom, agora você tem que olhar para o futuro". Queriam me proteger, mas eu queria falar como me sentia. As pessoas não estavam preparadas para escutar. Você viu o filme O Náufrago com Tom Hanks? Quando ele voltou da ilha, deram-no uma festa. Bom, me senti da mesma maneira que o Tom Hanks se sentiu no filme. Senti-me como se estivesse em uma outra frequência. Fui até a cozinha e liguei o fogão. Estava escuro. Estava totalmente lúcido e me senti extremamente forte. Disse a mim mesmo: "Você tem que ser forte porque eles podem não entender o sofrimento pelo qual você passou".

Você teve contato com algum soldado britânico ao longo dos anos?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Hulton Archive/Hulton Archive/Getty Images)

Sim, com Terry Peck. Ele é o pai de James Peck, um dos poucos moradores das Ilhas Malvinas a ter cidadania argentina. Ele lutou contra nós e o conheci durante minha primeira viagem de retorno. Foi notável. Fomos ao campo de batalha juntos, tínhamos coisas em comum que só veteranos podem entender. Muitas pessoas me perguntam como eu posso abraçar o inimigo e eu digo que ele foi um ser humano que estava comigo no inferno. É irrelevante a que país pertencíamos. Nós fizemos um brinde pelos companheiros mortos. Foi respeitoso, não glorificante ou nacionalista. Nos conhecemos em um lugar onde nossos países lutaram por dias em uma guerra estúpida.

Você concorda que isso foi uma guerra sem sentido?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Christopher Furlong/Getty Images News/Getty Images)

Totalmente.

Você conversou sobre o fato que eles eram profissionais e o lado argentino tinha mais jovens que nem ao menos sabiam disparar uma arma?

Sim, eles podem não acreditar na enorme diferença entre os dois lados. Eles eram soldados treinados, com no mínimo de cinco anos de preparação. Nós eramos civis que tínhamos acabado de sair da escola secundária. Não tínhamos nenhum treinamento ou comida.

Atualmente você tem 50 anos. Ainda existe alguma coisa na vida que você não entende?

A Guerra das Malvinas: As lembranças de um argentino
(Quique Kierszenbaum/Getty Images News/Getty Images)

Nacionalismo. Continuo sem entender pessoas que querem começar uma guerra, mas ficam sentadas no sofá dando suas opiniões sobre a guerra da qual eles não tem a mínima ideia sobre o que é. Não entendo historiadores que falam que recrutas argentinos não foram vítimas. Nós fomos, mas decidimos não nos descrever como tal. Não havia muitas coisas que poderíamos fazer, mas nos mantivemos unidos e trabalhamos para sair vivos da guerra. Coisas simples como nos abraçarmos para não morrermos congelados. Nós sabíamos que não poderíamos depender de nossos superiores. Tínhamos três inimigos - o frio, os ingleses e nossos líderes.

Que coisas você entende, agora com 50 anos?

Aprendi do período de euforia que as coisas mais importantes na vida não são nossas posses. Quando retornei, vi uma sociedade materialista que não reserva tempo para ouvir os outros. Foi como se tivessem jogado água fria em mim e eu tivesse acordado.

O que o moletom significou para você?

Senti como se retornasse para casa. Como se minha mãe tivesse colocado um casaco em mim.

Não perca

Filtro:
  • Geral
  • Artigos
  • Slides
  • Vídeos
Mostrar:
  • Mais relevantes
  • Mais lidos
  • Mais recentes

Nenhum artigo disponível

Nenhum slide disponível

Nenhum vídeo disponível