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As músicas do Legião Urbana que você nunca vai deixar de ouvir

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Introdução

A Legião Urbana permanece sendo, mais de 30 anos após seu surgimento, a mais popular banda de rock que o Brasil já teve. Composta pelo vocalista Renato Russo, o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá (o baixista Renato Rocha seria expulso em 1988), o grupo vendeu mais de 20 milhões de discos. O segredo de tanto sucesso estava em Russo, com seu carisma, voz potente e, principalmente, seu talento inigualável como letrista. Mesmo após o fim da banda, em 1996, os fãs cantam suas canções como se fossem hinos. Confira aqui 15 composições antológicas, que fizeram muito sucesso e até hoje continuam sendo ouvidas pelo país afora (e até fora dele).

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A Via Láctea

O disco “A Tempestade ou O Livro dos Dias” foi lançado em 1996 e causou frisson nos fãs. Em parte por ser o primeiro lançamento do grupo após três longos anos de ausência. Mas também porque o conteúdo era extremamente melancólico e depressivo. O álbum ficou marcado como uma espécie de testamento do líder Renato Russo, que morreria naquele mesmo ano, vítima da Aids. Ouvir “A Via Láctea”, a primeira música a chegar às rádios, era como se ouvisse o vocalista pedindo ajuda, tarde demais: “Hoje a tristeza não é passageira/ Hoje fiquei com febre a tarde inteira/ E quando chegar a noite/ Cada estrela parecerá uma lágrima”.

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Giz

Renato Russo disse em várias entrevistas, e durante shows, que “Giz” foi a música que ele mais gostou de fazer. Quem sabe como foi a atribulada vida do artista entende o porquê. Depois de passar anos praguejando contra as injustiças do mundo e a infelicidade no amor, ele conseguiu fazer uma canção singela, simples e... feliz! A faixa está no álbum “O Descobrimento do Brasil”, de 1993. Na época, ele se recuperava de um pesado vício em heroína e estava disposto a reconstruir sua vida. Os versos são cativantes: “Desenho toda a calçada/ Acaba o giz, tem tijolo de construção / Eu rabisco o Sol/ Que a chuva apagou”.

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Geração Coca-Cola

O primeiro disco da Legião Urbana, batizado apenas com o nome da banda, é um dos mais intensos discos de pop-rock já feitos no País. Lançado em 1985, trazia influências de bandas como Smiths e Gang of Four. Russo, Dado, Bonfá e Rocha mostraram a que vieram, com canções engajadas e diretas. Uma delas é "Geração Coca-Cola", permeada de fúria adolescente. “Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. Desde então, seria difícil não falar do grupo sem usar o termo “filhos da revolução”, que também consta na música e é uma ironia ao golpe militar de 1964.

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O Mundo Anda Tão Complicado

Cansado de falar de suas desilusões amorosas nas canções da Legião Urbana, Renato Russo decidiu variar. Escreveu uma letra sobre a alegria de um casal que passa a morar junto, descrevendo a mudança para o novo lar e a ansiedade de iniciar uma vida diferente. O cantor não chegou sequer perto de alcançar esta existência idílica, mas a canção era tão perfeita que parecia ser apenas uma narração de seus dias felizes. "Vem cá, meu bem/ Que é bom lhe ver/ O mundo anda tão complicado/ E hoje eu quero fazer tudo por você". A composição se tornou um ponto de relaxamento dentro do álbum “V”, de 1991, de clima pesado e sombrio.

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Quase sem querer

O sucesso estrondoso de “Dois”, segundo álbum da Legião Urbana, lançou nas rádios de todo o país uma série de hits. Um deles foi “Quase sem Querer”, uma das mais cativantes canções deste incrível álbum de 1986. A música, uma balada com forte temática adolescente, fala dos conflitos pelos quais todo jovem passa: insegurança, indecisão e a necessidade de se afirmar. Cada estrofe era como um raio-x da juventude: “Como um anjo caído/ Fiz questão de esquecer/ Que mentir pra si mesmo/ É sempre a pior mentira/ Mas não sou mais/ Tão criança a ponto de saber tudo”.

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Índios

Esta é outra canção do álbum “Dois”, igualmente espetacular, mas com um enfoque bem mais denso. A música fala de hipocrisia, de posse, autoritarismo e culpa, de uma forma ampla. “Quem me dera ao menos uma vez/ Provar que quem tem mais do que precisa ter/ Quase sempre se convence que não tem o bastante/ Fala demais por não ter nada a dizer”. No entanto, o título da canção permite que se possa interpretar tudo como a histórica agressão dos colonizadores aos índios, um tema que sempre foi explorado nas letras do grupo. O fim da canção é desalentador: “Nos deram espelhos/ E vimos um mundo doente/ Tentei chorar e não consegui”.

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Há tempos

Outra música desesperançada, bem ao estilo de Renato Russo. “Há Tempos” abre o disco “As Quatro Estações”, de 1989. É um dos melhores álbuns da banda e esta canção explica por que. A forma superlativa com que fala de sofrimento e desespero é singular: “Dissestes que se tua voz/ Tivesse força igual à imensa dor que sentes/ Teu grito acordaria/ Não só a tua casa, mas a vizinhança inteira”. Neste período, Renato Russo teria descoberto que estava com o vírus da Aids, mas nunca deixou isso público. De certa forma, explica o teor depressivo de algumas composições. Poucos como ele sabiam tirar poesia do sofrimento.

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Eu Sei

“Sexo verbal não faz meu estilo/ Palavras são erros e os erros são seus/ Não quero lembrar/ Que eu erro também”. O começo dessa música já mostra alguns temas recorrentes das canções de Renato Russo: conflitos amorosos, crises, brigas etc. A canção foi composta em 1982, após o fim de sua primeira banda, o Aborto Elétrico, e logo antes de criar a Legião Urbana. Nesse curto período, ele deixou o rock de lado e apostou em canções folk, apresentando-se nos bares de Brasília como O Trovador Solitário. Antes conhecida como 18 e 21, ficou guardada por cinco anos, até entrar no disco “Que País é Este (1978-1987)”.

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Teatro dos Vampiros

A era Collor, de inflação galopante, desemprego elevado e país estagnado, não podia passar batido pela pena afiada de Renato Russo. Uma das mais pungentes canções do disco “V” tem frases que casam perfeitamente com o clima de pessimismo: “Vamos sair/ Mas não temos mais dinheiro/ Os meus amigos todos estão procurando emprego/ Voltamos a viver como dez anos atrás/ E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. A parceria com Dado Villa-Lobos se tornou uma das mais belas do grupo, graças ao arranjo intimista. Anos depois, o cantor diria que aquela música era sobre a televisão, mas o apelo político da letra permaneceu.

Urbana Legio

Perfeição

O disco “O Descobrimento do Brasil” tinha um clima bem mais ameno em relação aos anteriores da Legião Urbana. Mas nem por isso deixaria de haver um grito de indignação. A primeira música de trabalho deste álbum, “Perfeição”, é uma metralhadora giratória contra tudo e todos, carregada de ironias. “Vamos celebrar a estupidez humana/ A estupidez de todas as nações/ O meu país e sua corja de assassinos/ Covardes, estupradores e ladrões”. O ritmo corrido proposto por Dado Villa-Lobos deu ainda mais dinâmica à canção, que explodiu em todas as rádios do país. Era o grande letrista jogando para fora sua indignação.

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Que País É Este?

Em 1978, Renato Russo compôs uma canção ácida, cortante e corajosa. Em pleno Planalto Central, ainda durante a ditadura militar, ele descia o sarrafo nos governantes. Também sobrava para burocratas e a classe dominante de forma geral, que massacrava pobres, iletrados e indígenas sem titubear. “Na morte eu descanso/ Mas o sangue anda solto/ Manchando os papeis/ Documentos fieis/ Ao descanso do patrão”. A música se tornou um hit local, durante as apresentações de sua antiga banda, o Aborto Elétrico. Ficou um tempo esquecida, mas foi gravada para abrir o álbum “Que País É Este (1978-1987)”, tornando-se um êxito nacional.

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Será

Este foi o primeiro grande sucesso da Legião Urbana. A canção abria o disco de estreia e se tornou a primeira a ser executada nas rádios. A princípio, todo mundo estranhou aquele cantor com a voz tão parecida com a do jovemguardista Jerry Adriani. Mas logo todos se renderam ao seu talento vocal e à belíssima letra: “Tire suas mãos de mim/ Eu não pertenço a você/ Não é me dominando assim/ Que você vai me entender/ Eu posso estar sozinho/ Mas eu sei muito bem aonde estou/ Você pode até duvidar/ Acho que isso não é amor”. A música de Dado Villa-Lobos e o arranjo remetiam aos hits de bandas britânicas. Só podia dar certo!

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Pais e Filhos

Em 1994, a Legião se apresentava em um programa de TV e o público pediu “Pais e Filhos” sem parar. Renato se impacientou com a veemência e disse: “Escuta, vocês sabem que essa música é sobre suicídio, né? Olha só: ‘ela se jogou da janela do quinto andar’”. O episódio diz muito sobre o estilo de composição do roqueiro, mas também sobre o impacto que suas canções causavam nos jovens. Afinal, esta falava também das turbulentas relações familiares: “Você me diz que seus pais não te entendem/ Mas você não entende seus pais/ Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo/ São crianças como você/ O que você vai ser quando você crescer?”

Flickr: rockinriooficial

Eduardo e Mônica

Um dos grandes talentos de Renato Russo é o de contador de histórias. Várias de suas composições são narrativas lineares, com começo, meio e fim. Um exemplo é “Eduardo e Mônica”, do disco “Dois”. A letra conta a bela e curiosa história de amor entre um adolescente e uma garota mais velha. Mesmo com tantas diferenças entre si, eles se apaixonam. A música foi lançada em 1986, mas composta em 1981, na fase “Trovador Solitário”. São mais de quatro minutos, com o refrão repetido apenas no início e no fim: “E quem um dia irá dizer/ Que existe razão/ Nas coisas feitas pelo coração?”.

Divulgação Globo Filmes

Faroeste Caboclo

Talvez a melhor música já composta no rock brasileiro, “Faroeste Caboclo” é mais um caso de história linear contada por Russo. São nove minutos de música, com 168 versos, sem refrão ou repetição que a torne mais palatável. A canção ainda passeia por vários estilos musicais: folk, moda de viola, reggae e rock. Mesmo assim, se tornou um sucesso absoluto. Não há quem não se impressione com a história de João de Santo Cristo, que de uma infância perdida em algum rincão ermo do Brasil, foi parar na Capital Federal. Lá, se tornou traficante, conheceu o amor, o ódio e a morte. A canção foi composta em 1979 e lançada no álbum “Que País É Este (1978-1987)”.