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Vida e obra de Nelson Mandela

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Introdução

Um dos nomes mais emblemáticos da luta pela igualdade entre os homens, o advogado Nelson Mandela é um mito incontestável do século XX. Durante toda a sua vida, lutou contra o racismo na África do Sul e foi um dos responsáveis pelo fim do Apartheid, o terrível sistema de leis segregacionista do país. Sempre militante, foi preso pelas autoridades por sua rebeldia e ficou 27 anos atrás das grades. Mas deu a volta por cima. Em 1993, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, por sua luta pela justiça e igualdade entre as pessoas, sem o uso da violência. No ano seguinte, tornou-se presidente e ajudou a moldar a moderna nação sul-africana. Conheça um pouco mais de sua fantástica trajetória.

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Infância

Batizado como Rolihlahla Dalibhunga Mandela, ele nasceu em Mvezo, uma pequena aldeia de Cabo Oriental, em 18 de julho de 1918. Era filho de um chefe tribal e foi preparado para assumir esta posição. Passou a infância em meio à dura vida no campo, cuidando do gado e das plantações. Aos sete anos, iniciou seus estudos na escola primária. Ali, recebeu o nome Nelson, já que havia o hábito de dar nomes britânicos a todas as crianças que frequentavam os bancos escolares. Ainda nesta época, ouvia da mãe e das tias histórias sobre heróis míticos da África, como os reis Dingane e Bambata. O garoto ficou muito impressionado com as façanhas narradas pelas mulheres.

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Juventude e estudos

Em janeiro de 1934, às margens do rio Mbashe, Mandela se submeteu à circuncisão, comum entre os jovens da etnia Tembu. Ao final, o chefe tribal proferiu um discurso que o marcaria: o ritual, que prometia masculinidade, era na verdade vazio e sem sentido, já que todos os jovens negros eram oprimidos em seu país. Enquanto isso, Mandela continuava a estudar com afinco. Matriculou-se na conceituada escola preparatória Clarkebury Boarding Institute, exclusiva para negros da elite. Ali, começou a ampliar seus horizontes. Anos depois, seguiu para o internato Healdtown (foto), onde se aprofundou em seus estudos.

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Na Universidade

Desde a morte de seu pai, aos 9 anos, Mandela tinha como tutor seu tio, o rei Jongintaba. O soberano cuidou bem da educação do jovem, preparado para ser um líder tribal. Em 1939, Mandela é aceito na Universidade Fort Hare (foto), primeira do país a receber negros. Estuda, no primeiro ano, inglês, holandês, Antropologia, Administração Nativa, Política e Direito Romano. Logo no segundo ano mostra sua faceta rebelde: participa de uma manifestação contra a baixa qualidade da comida servida na instituição. Organiza um boicote à eleição do conselho estudantil e, mesmo assim, é eleito. É instado pelo reitor a aceitar o cargo, mas o recusa e abandona os estudos.

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Em Johannesburgo

Àquela altura, Mandela já começava a consolidar sua personalidade de jovem rebelde, obstinado e cada vez mais distante das antigas tradições familiares. Quando o rei Jongintaba anuncia um casamento arranjado, ele resolve fugir, já que sonhava com um matrimônio ao modo ocidental e urbano, em que conheceria e se apaixonaria pela sua noiva. Chega então à grande cidade de Johannesburgo, onde passa a morar em uma favela no subúrbio e viver de pequenos serviços. É a partir desse momento que ele sente o grande abismo que separa os brancos dos negros em seu país. Até então, ele vivia como um jovem da nobreza tribal, alheio a estas injustiças.

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Graduação e ação política

Mesmo após abandonar a universidade Fort Hare, não larga os estudos. Após conseguir um trabalho em um escritório de advocacia, realiza um curso por correspondência: um Bacharelado em Artes pela Universidade da África do Sul, em 1942. No ano seguinte, ingressa na Universidade de Witwatersrand (foto), para se graduar advogado. É neste período de grande aprendizado intelectual que inicia sua intensa atividade política. Passa a participar das reuniões do Congresso Nacional Africano (CNA), partido no qual trabalharia a maior parte de sua vida. Começa, de fato, sua longa guerra contra o racismo na África do Sul: as batalhas estavam apenas começando.

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Direito e política

Após se formar, Nelson Mandela cria o primeiro escritório de advocacia integrada por negros do país. Ao lado de Oliver Tambo, passa a atuar em vários casos em defesa dos mais pobres, contra a discriminação social e racial. A partir daí, começa a perceber melhor o funcionamento da Justiça de seu país, sempre pendendo para os dominadores brancos. O país ainda não sofre com o Apartheid, mas o segregacionismo existe, de forma não-oficial. Em 1944, ele e um grupo de amigos criam a Liga Juvenil do CNA (ANCYL, na sigla em inglês). Denunciam a terrível concentração de renda e terras nas mãos da minoria branca. À época, apenas 20% da população sul-africana era de brancos.

Black Stars

Família

Ao mesmo tempo em que evoluía na sua carreira de advogado e também como militante político e racial, Nelson Mandela realizava seu sonho de um casamento não arranjado. Em 1944, oficializa suas bodas com Evelyn Mase. Juntos, tiveram quatro filhos, sendo duas meninas e dois meninos. A união duraria 12 anos e terminara porque o líder político estava engajado demais em suas causas, não dedicando à família o tempo que a esposa queria. Ele voltaria a se casar em 1957 com Winifred Zanyiwe, conhecida como Winnie. Esta nova união duraria até os anos 1990, inclusive durante o período em que esteve preso.

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Chega o Apartheid

A África do Sul sempre sofreu com o racismo e a segregação gerados pela minoria branca no poder. Até 1949, porém, esse era um processo velado, escondido. Tudo mudou quando o Partido Nacional, de extrema-direita, assume o comando do país. Sua primeira providência é aprovar uma série de leis que praticamente banem os negros da sociedade sul-africana, o Apartheid. Mandela agora terá de enfrentar um regime ainda mais feroz, em sua luta eterna pelo fim da discriminação racial. Ele e seus companheiros do CNA iniciam uma reação. Com a ajuda de pessoas de várias nacionalidades, passam a divulgar as violações aos direitos humanos do novo governo.

E. Weinberg

Desafio ao poder

Em 1950, o governo amplia a repressão contra os negros, roubando-lhes terras e bens. O Congresso Nacional Africano e outros grupos políticos de defesa dos negros ampliam as manifestações em todo o país. Neste momento, Nelson Mandela se torna um dos líderes nacionais do movimento antirracial. Entre 1952 e 1958, alterna atividades políticas contra o apartheid com sua carreira jurídica, sempre defendendo negros oprimidos pelo regime. Pela oposição ao Apartheid, é preso em várias ocasiões. O Partido Nacional tenta cassar seu direito a legislar, mas a Suprema Corte nega o pedido.

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O início da revolta

Mandela sempre foi um defensor dos protestos sem violência contra o governo racista. Até que em 1960 a polícia reprimiu violentamente um protesto que reuniu cinco mil pessoas. Foram mortos 69 manifestantes e outros 180 ficaram feridos. A brutalidade da ação, conhecida como O Massacre de Sharpeville, abriu caminho para a resistência armada. O manifesto “Lança de uma Nação” ilustra a decisão pelas ações de guerrilha contra o governo. Em 1962, ele vai a Londres e visita vários países africanos, onde se aperfeiçoa nas atividades paramilitares e também na organização do movimento. Seu principal objetivo era angariar apoio popular à sua revolução.

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Prisão

Mandela não conseguiu dar início às suas ações de guerrilhas. Ainda em agosto de 1962, ao retornar à África do Sul, é preso pela polícia e condenado a sete anos de prisão. Não satisfeito, o governo faz novas acusações. Em novo julgamento, o líder profere um discurso histórico: "Durante minha vida, dediquei-me à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer". É condenado à prisão perpétua.

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Mesmo preso, um líder

Os primeiros anos de prisão foram os mais duros. O governo o confinou em um presídio de segurança máxima, onde não tinha acesso ao noticiário e as visitas de amigos e familiares eram rigidamente controladas. Mesmo assim, Mandela buscou evoluir intelectualmente. Aprendeu o africâner, idioma derivado do holandês e falado pelos brancos sul-africanos, para melhor enfrentar o regime. Os brancos se tornam ainda mais violentos, massacrando a população e apelando a táticas terroristas, enviando cartas-bomba a opositores no exílio. Pressionado internacionalmente, o Partido Nacional transfere Mandela a uma penitenciária menos rígida. A partir de então, ele passa a atuar como um porta-voz dos negros, mesmo encarcerado.

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Enfim, a liberdade

A ação de Mandela atrás das grades é fundamental para que as reivindicações dos negros passem a ser ouvidas. Em 1987, o governo começa a negociar o fim da violência com o CNA, mas não encontra eco em seu pedido. É obrigado a procurar o velho líder, para que seja um intermediador das negociações. Sua principal reivindicação é o fim dos bantustões, zonas paupérrimas onde os negros foram lançados, em uma espécie de exílio em seu próprio país. Em 1989, o presidente Pieter Botha fica doente e é sucedido por Frederik de Klerk. As negociações para o fim do Apartheid avançam. No dia 11 de fevereiro de 1990, o grande líder sul-africano é libertado, após 27 anos preso.

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Nobel da Paz e presidente

Livre, o líder negro comandou o processo de extinção do Apartheid. Seus discursos conciliadores encontraram oposição entre seus próprios companheiros do CNA, que defendiam uma ação mais incisiva para acabar com as desigualdades. Mas sua figura carismática e sua defesa pela paz encontraram eco na própria população branca, que apoiaram em um referendo a realização de uma nova constituinte. Em 1992, as leis racistas começaram a cair. No ano seguinte, Mandela e de Klerk foram agraciados com o prêmio Nobel da Paz. As profundas mudanças na legislação permitiram que, em 1994, Nelson Mandela se tornasse o primeiro presidente negro da África do Sul.

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A luta pela igualdade

Nos cinco anos em que liderou seu país, Mandela arrefeceu os ânimos da população e evitou uma guerra entre brancos e negros. Lutou contra o revanchismo, mas também contra a impunidade. Criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, que apurou as violações dos direitos humanos durante o regime do Apartheid. Nessa mesma época, separa-se de Winnie e, anos depois, casou-se com Graça Machel. Durante seu governo, foi criticado por não aprofundar as reformas econômicas que reduziriam a concentração de renda nas mãos da população branca. Por outro lado, é sempre lembrado por levar a paz ao país e impedir uma guerra civil. Deixou o governo, mas continuou lutando pela igualdade, até 2009, quando se aposentou definitivamente.