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Quem foi Vladimir Herzog

A triste história de Vladimir Herzog
Reprodução Audálio Dantas|Civilização Brasileira

Introdução

A ditadura militar do Brasil deixou muitas marcas na sociedade, mas feriu principalmente as famílias que viveram e lutaram durante o período. Entre elas está a de Vladimir Herzog, importante jornalista que militou pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Herzog foi torturado e morto em 1975, depois de se apresentar ao Exército para "prestar esclarecimentos" sobre suas ações "criminosas". Na versão da época, ele teria se suicidado.

Reprodução Audálio Dantas|Civilização Brasileira

Infância e adolescência

Vlado Herzog nasceu em 27 de junho de 1937, na antiga Iugoslávia (atual Croácia). Veio para o Brasil com seus pais, Zigmund e Zora Herzog, depois da Segunda Guerra Mundial. Como eram de origem judaica, eles estavam sendo perseguidos pelo Estado, que era controlado pela Alemanha nazista. Ainda durante a guerra, fugiram para a Itália, onde viveram clandestinamente em algumas cidades. Somente após o conflito imigraram para São Paulo.

Reprodução www.transparencyinsport.org

Formação e início da carreira

Vlado se formou em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), em 1959. Mas, depois de formado, começou a atuar como jornalista em diversos órgãos de imprensa. Trabalhou para o jornal "O Estado de S. Paulo", onde começou a assinar como "Vladimir" porque achava que seu nome soava estranho aos brasileiros. Ali, foi um dos repórteres destacados para a equipe que instalaria uma filial em Brasília, nos primeiros meses de vida da nova capital federal. Além disso, exerceu as funções de redator e chefe de reportagem até 1965, quando saiu da empresa.

Reprodução www.transparencyinsport.org

Na TV

Em 1963, enquanto trabalhava para "O Estado de S. Paulo", Herzog entrou para o telejornalismo. Atuou como redator e secretário do "Show de Notícias", o telejornal diário da TV-Excelsior (antigo Canal 9 de São Paulo). Mesmo ao sair do telejornal, Vladimir continuou investindo em sua carreira na TV. Em 1965, ele foi para Londres, Inglaterra, para trabalhar no Serviço Brasileiro da BBC, como produtor e locutor. Prestou colaboração também ao Departamento de Cinema e TV do Central Office of Information, órgão do Foreign Office, na produção e apresentação de programas sobre a Inglaterra, para a televisão brasileira.

Reprodução www.transparencyinsport.org

Em Londres

Durante os três anos que morou em Londres, Herzog aproveitou para estudar e aprimorar seus conhecimentos de televisão e cinema. Ele conseguiu uma bolsa, ao ser indicado pela Secretaria da Educação de São Paulo, para cursar o "Film and Television Course for Overseas Students" (em português, Curso de Cinema e Televisão para Estudantes Estrangeiros), no Centro de Televisão da BBC. Durante seus estudos, fez ainda estágio em diferentes departamentos da BBC-TV.

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De volta ao Brasil

Ao retornar ao Brasil, em 1968, trabalhou na revista "Visão" como editor cultural. Em 1972, foi chamado para dirigir o recém-lançado telejornal A Hora da Notícia, na TV Cultura, de São Paulo. No mesmo período, deu aulas de telejornalismo na Fundação Armando Álvares Penteado e na Escola de Comunicações e Artes da USP. Eram os "anos de chumbo" da ditadura brasileira, e a censura e repressão desagradavam principalmente aos órgãos de imprensa. Como integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Vladimir passou a militar no movimento de resistência contra o regime.

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Contexto histórico

Em 1974, o general Ernesto Geisel se tornou presidente com o discurso de "abertura política" (na época chamado de "distensão"). Na prática, isso significaria a diminuição da censura, investigação das denúncias de torturas e maior participação civil no governo. Mas, além da vitória dos opositores nas eleições parlamentares e da crise do petróleo, o general Ednardo D'Ávila Mello acusava comunistas de terem militantes infiltrados no governo de São Paulo. Para não haver falha no sistema, a repressão continuou forte. Sentindo-se ameaçado, o Centro de Informações do Exército (CIE) começou a investigar, principalmente, o PCB.

Reprodução www.cartacapital.com.br

O depoimento

Em outubro de 1975, Vlado foi convocado pelo 2º Exército para prestar depoimento sobre suas ligações com o PCB. Os militares o acusavam de estar envolvido em ações criminosas, já que o partido era ilegal. Ele compareceu ao Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (o DOI-CODI, órgão de inteligência e repressão do Exército) e ficou preso com mais dois jornalistas. No dia seguinte, 25, ao ser chamado para depor, negou qualquer ligação com o PCB. Vladimir Herzog não foi mais visto com vida.

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O suposto suicídio

Naquele dia 25 de outubro, o Serviço Nacional de Informações (SNI) recebeu a notícia de que o jornalista Vladimir Herzog teria se suicidado. Segundo o laudo, expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, ele havia se enforcado com uma tira de pano — a "cinta do macacão que o preso usava" — amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura. Sem espaço para que seu corpo pendesse, o jornalista teria ficado com os pés no chão e as pernas curvadas, como mostrava a foto anexada ao laudo.

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A grande questão

A questão é que o macacão dos prisioneiros do DOI-CODI não tinha cinto, que era retirado juntamente com os cordões dos sapatos antes de serem encaminhados para suas celas. Além disso, na posição em que o jornalista se encontrava (mostrada na foto) seria impossível se enforcar. Segundo o rabino que preparou o corpo de Vlado, havia marcas que comprovavam a tortura pela qual ele passou. Os jornalistas que foram presos com ele, George Duque Estrada e Rodolfo Konder, afirmaram ter escutado soldados dando ordens para buscar a cadeira elétrica naquele dia.

Reprodução www.transparencyinsport.org

Estopim

A morte de Herzog foi o catalisador de muitas mudanças. Os judeus não enterram suicidas dentro de seu cemitério, mas fora dele. Porém, Vladimir foi enterrado dentro do cemitério Israelista, mostrando a todos que não se acreditava na versão do governo. O ato inter-religioso pela sua morte foi a primeira grande manifestação contra as práticas da ditadura, depois do AI-5, e reuniu milhares de pessoas dentro e fora da Catedral da Sé, em São Paulo. Os protestos incentivaram outros, que enfraqueceram a ditadura até chegar a seu fim (em 1985). O registro de óbito de Vladimir, porém, só foi retificado em 2012, passando a constar que a "morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do 2º Exército – SP (DOI-CODI)".