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A história de Tostão

Reprodução Revista Placar|Setembro 2002

Introdução

Eduardo Gonçalves de Andrade, conhecido como Tostão, foi um dos jogadores de futebol mais brilhantes do Brasil. Ele ganhou destaque em campo ao entrar para o Cruzeiro, em 1961. Mas foi na Copa do Mundo na Inglaterra, em 1966, que ele ficou conhecido internacionalmente. O jogador foi fundamental na conquista do tricampeonato mundial do Brasil, na Copa de 1970, sediada no México. Ainda jovem, correu o risco de perder a visão e teve que dar um ponto final em sua carreira no futebol. Ele ainda chegou a estudar medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e por muito tempo não falou sobre sua antiga carreira. Hoje, o ex-jogador é cronista e comentarista esportivo.

Reprodução Blog Chico Maia

Infância e adolescência

Eduardo nasceu no dia 25 de janeiro de 1947, em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Ele recebeu o apelido de Tostão (uma moeda de prata muito valorizada durante séculos) ainda criança, quando jogava no time do bairro e era um dos melhores da equipe. O mineiro costumava jogar na ponta-esquerda, além de chutar quase exclusivamente com a canhota devido a um acidente com uma das unhas do pé direito, quando tinha seis anos de idade.

Reprodução Atlético x Cruzeiro Fotos Raras e Histórias

Início da carreira

O futebol de Tostão começou a se destacar quando, em 1961, entrou para o time de futebol de salão do Cruzeiro. Após uma curta passagem pelo América Mineiro, em 1962, voltou para o time onde fez história: é o maior artilheiro do Cruzeiro Esporte Clube, tendo feito 249 gols em 378 jogos. Junto com ele se iniciava uma nova geração de craques com Dirceu Lopes, Wilson Piazza, Evaldo e Zé Carlos. O Mineirinho formou uma das duplas de maior talento do futebol brasileiro com Dirceu Lopes.

Reprodução Futebol de Todos os Tempos

Carreira no Cruzeiro

Com a equipe de craques que incluía Tostão (de 1963 a 1972), o Cruzeiro colecionou títulos. O clube mineiro foi pentacampeão estadual entre 1965 e 1969; venceu o Santos Futebol Clube do "Rei Pelé", em 1966, quando conquistou a Taça do Brasil; e foi bicampeão na Copa Rio Branco (1967 e 1968). O jogador acabou conquistando o coração de brasileiros e estrangeiros amantes do futebol e recebeu outro apelido: "Mineirinho de Ouro", o primeiro jogador de um clube mineiro a jogar uma Copa do Mundo pelo Brasil, em 1966.

Reprodução I Got Cider in My Ear

Seleção brasileira

O Mineirinho estreou na seleção brasileira em 1966 num amistoso contra o Chile, que terminou em 1 a 1, no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Naquele mesmo ano, com apenas 19 anos de idade, Tostão foi convocado para a Copa do Mundo na Inglaterra. Para muitos torcedores e comentaristas esportivos, o jogador era um dos poucos que salvava a seleção do técnico Vicente Feola, que fracassou na competição. Na única partida em que Tostão entrou em campo, o Brasil perdeu por 1 a 3 para a Hungria, em Liverpool, com gol do mineiro, e foi eliminado.

Reprodução Futebol Saudades

Imprevisto

Em 1969, ao lado de Pelé, Tostão classificou o Brasil para o Mundial no México, que aconteceria no ano seguinte. Com dez gols e consagrado como "vice-rei" pela imprensa, o jogador garantiu a vaga e confirmou sua participação, como titular da Seleção, na Copa. No mesmo ano, num amistoso em Bogotá, na Colômbia, Eduardo machucou o olho esquerdo em campo. Um mês depois, ao disputar o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o "Robertão" (antigo Campeonato Brasileiro), pelo Cruzeiro, a bola bateu de raspão no mesmo olho do jogador, deslocando sua retina. A dúvida que pairava no ar era se ele iria ou não jogar a Copa de 1970.

Reprodução My Football Facts

Copa do Mundo de 1970

Em outubro de 1969, Tostão passou por uma cirurgia em Houston, Estados Unidos, e o Brasil e o mundo acompanharam o drama do craque. Ninguém acreditava que o jogador voltaria aos gramados para disputar a Copa do Mundo no México, em 1970, pois ele só se recuperaria da cirurgia a três meses do campeonato. Mas ele voltou. Ao lado de Pelé e vestindo a camisa 9, ignorou o risco de perder a visão e disputou a Copa. O craque foi crucial na conquista do tricampeonato mundial do Brasil e, para a imprensa europeia, foi o melhor jogador daquele Mundial.

Reprodução Tostão Lembrança, Opiniões, Reflexões sobre Futebol|Editora DBA

Negociações

Em 1972, Tostão finalizou sua carreira pelo Cruzeiro, fechando sua participação no jogo contra o Nacional de Uberaba, pelo Campeonato Mineiro, que terminou num empate em 2 a 2. Após uma "briga" entre clubes brasileiros por seu passe, o jogador foi transferido para o Vasco da Gama, que "venceu" a disputa na maior transação registrada até então. A passagem do jogador pelo Vasco foi curta, pois, em 1973, voltou a ter problemas de visão.

Reprodução Futebol Saudades

Fim da carreira

A Taça da Independência, competição vencida pelo Brasil em 1972 contra Portugal fechou a participação do Mineirinho na Seleção Brasileira. No ano seguinte, já afastado do Vasco devido a problemas de saúde, Tostão aceitou o conselho de seu médico de encerrar a carreira no futebol, pois o jogador corria risco de ficar cego. O Mineirinho de Ouro marcou seu último gol no dia 10 de fevereiro de 1973, numa partida contra o Flamengo e, dias depois, no jogo contra o Argentinos Juniors, anunciou sua saída do futebol.

Reprodução Associados Cruzeiro

Prêmios e recordes

Tostão foi o maior artilheiro em campeonatos mineiros e detém o recorde de artilharias em sequência: 105 gols em seis edições seguidas (17 em 1965; 18 em 1966; 25 em 1968; 14 em 1969; e 11 em 1970). Além disso, foi o artilheiro do último Robertão. Em 1969, o jogador ganhou o prêmio Golfinho de Ouro, para a personalidade brasileira mais destacada no esporte. Em 1970, recebeu o prêmio "Bola de Prata" da Revista Placar, mesma publicação que, em 1999, colocou Tostão na lista dos 50 melhores jogadores do mundo. Em 1971, foi eleito melhor jogador sul-americano pelo Jornal El Mundo, da Venezuela.

Reprodução Universidade Federal de Minas Gerais

Atualmente

Após deixar o futebol, Tostão formou-se em medicina e exerceu a profissão por muitos anos em Minas Gerais. Nos anos de 1990, redescobriu o sabor do futebol através da literatura. Tornou-se cronista, colunista e comentarista esportivo. Escreveu o livro "Lembranças, Opiniões e Reflexões sobre Futebol", lançado pela editora DBA de São Paulo. Nele, conta: "Voltar ao futebol é reencontrar-me comigo mesmo, com meu passado, apagar as mágoas, decepções que tive durante a minha carreira. Eu tinha uma imagem preconceituosa, a de que o esporte cultivando o corpo é um assunto menor, não intelectual, primário, popular. Saindo dele faria uma carreira maior, mais importante, mais culta. Estava enganado. É uma atividade humana altamente criativa e principalmente rica em emoções."