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Os políticos brasileiros que fizeram parte da resistência à ditadura militar

Reprodução fotospublicas.com|Célio Azevedo

Introdução

A ditadura militar brasileira foi um período que se estendeu de 1964, com o golpe de 31 de março, a 1985, com a eleição de Tancredo Neves. Sob o argumento de tentar proteger o País de uma suposta ameaça comunista, personificada no então presidente João Goulart, os militares instauraram um regime que eliminou o voto direto, restringiu as liberdades individuais e de reunião, perseguiu opositores e, eventualmente, fechou o Congresso Nacional (com a assinatura do AI-5, em 1969). Conheça alguns dos políticos que lutaram contra o regime militar e surpreenda-se ao saber que muitos deles ainda estão atuando na política.

Depois de lutar contra a ditadura, o sociólogo e professor da USP foi ministro da Fazenda e presidente (1995-2002)
Getty Images

Fernando Henrique Cardoso

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é professor da Universidade de São Paulo (USP). Com o golpe, primeiro se exilou no Chile e depois na França. Ao retornar ao Brasil, ele volta à USP até ser aposentado por um decreto que punia "elementos subversivos". A convite de Ulysses Guimarães, ajudou a fundar o MDB, foi suplente de Franco Montoro no Senado e assumiu sua cadeira quando Montoro se torna governador de São Paulo, em 1982. FHC fez oposição à ditadura, como um dos principais líderes e articuladores das Diretas Já, movimento que pedia eleições diretas após o governo Figueiredo.

Miguel Arraes, avô do também falecido Eduardo Campos, retornou do exílio na Argélia em 1979, após a anistia
Reprodução Wikimedia Commons|José Cruz/ABr|Atribuição 3.0 Brasil (CC BY 3.0 BR)

Miguel Arraes

O primeiro mandato de Miguel Arraes no governo de Pernambuco durou pouco: de 31 de janeiro de 1963 a 2 de abril de 1964. Retirado à força, Arraes se exilou primeiro no Chile, de onde fugiu com a ascensão do general Pinochet, e depois na Argélia. Foi condenado à revelia em 1967 por "subversão". Com a anistia em 1979, voltou ao Brasil e se elegeu deputado federal em 1982. Quatro anos depois, retornou ao Palácio do Campo das Princesas para o segundo de três mandatos como governador do estado nordestino. Ele morreu em 2005, no Recife, aos 88 anos.

O deputado Rubens Paiva foi torturado e morto pela ditadura; o Estado só assumiu envolvimento na morte em 2013
Reprodução Revista Época São Paulo|Fair use

Rubens Paiva

O deputado federal Rubens Paiva foi assassinado pelo regime militar em 1971, por sua oposição ao regime militar. Um dia após o golpe, Rubens fez um discurso acalorado na Rádio Nacional, pedindo aos trabalhadores e estudantes que lutassem pela legalidade do governo de João Goulart. Teve seu mandato cassado em 10 de abril de 1964. Em seguida, se exilou sem a família na Iugoslávia e, depois, na França. Retornou ao Brasil e, em 1971, foi preso pelos agentes da repressão, sendo assassinado sob tortura. Seu corpo jamais foi encontrado e apenas 40 anos depois o governo brasileiro confirmou o envolvimento em sua morte.

Durante a ditadura, José Serra se exilou no Chile, onde conheceu sua futura esposa, a bailarina Mónica
Reprodução Fotos Públicas|Sérgio Viana/ Notícias.Botucatu

José Serra

José Serra, filho de italianos instalados no bairro da Mooca, em São Paulo, ingressou no movimento estudantil enquanto cursava a Escola Politécnica da USP. Presidiu da União Nacional dos Estudantes e ajudou a fundar a Ação Popular (AP), organização cristã de esquerda. Foi o mais jovem a discursar no "Comício da Central", logo antes do golpe militar. Em 1964, Serra se refugiou no Chile, onde conheceu sua esposa Mónica. Foi um dos deputados constituintes que elaboraram a Constituição de 1988, após a ditadura, sendo eleito em 1990 como deputado federal. Também foi prefeito e governador de São Paulo.

Após a ditadura, o gaúcho Leonel Brizola foi governador do estado do Rio de Janeiro
Reprodução Wikimedia Commons|Ana Nascimento/ABr|Atribuição 3.0 Brasil (CC BY 3.0 BR)

Leonel Brizola

O gaúcho Leonel Brizola foi o principal nome trazido à arena política pelo PTB de Getúlio Vargas. Antes de 1964, foi deputado estadual pelo extinto estado da Guanabara, incorporado ao Rio de Janeiro nos anos 1970, e apoiou a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Foi cassado depois do golpe e fugiu para o Uruguai. No exílio, tentou organizar um grupo armado contra a ditadura. Conseguiu asilo nos Estados Unidos e, tempos depois, em Portugal. Retornou ao Brasil com a anistia e se tornou o primeiro a ser governador de dois estados diferentes (RJ e RS).

Depois da ditadura, Pedro Simon também foi várias vezes senador pelo PMDB gaúcho
Reprodução Wikimedia Commons|Roosevelt Pinheiro/ABr|Atribuição 3.0 Brasil (CC BY 3.0 BR)

Pedro Simon

O senador Pedro Simon fez carreira na política brasileira e não chegou a se exilar fora do Brasil. Ao contrário, permaneceu como deputado federal entre 1962 e 1978 (descontando-se aí os períodos nos quais o Congresso esteve fechado), liderando a bancada do MDB depois da sanção da Lei do Bipartidarismo, em 1965. Na juventude, foi próximo a Brizola — de quem se tornaria rival posteriormente. Colaborou diretamente com Ulysses Guimarães na diretoria do MDB. Tornou-se senador em 1978, cargo que exerce até hoje. Sua contribuição mais notável contra a ditadura foi a coordenação nacional das Diretas Já, em 1984.

Ulysses Guimarães morreu em 1992, com a queda do helicóptero que ocupada na costa do Rio
Reprodução Fotos Públicas|Célio Azevedo

Ulysses Guimarães

A primeira experiência do paulista Ulysses Guimarães na política foi durante o breve experimento parlamentarista brasileiro, que teve Tancredo Neves como primeiro-ministro. Foi um apoiador de primeira hora do golpe e chegou a participar da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, mas rapidamente passou à oposição e se juntou ao MDB (atual PMDB), onde permaneceria até sua morte. Lançou em 1973 uma "candidatura simbólica" a presidente. Foi o presidente da Assembleia Constituinte, que produziu a Constituição de 1988. Morreu em um acidente de helicóptero em Angra dos Reis, na costa fluminense, em 1992.

Durante a ditadura, Gabeira se exilou na Suécia e lá permaneceu até 1979
Reprodução Wikimedia Commons|Atribuição 3.0 Brasil (CC BY 3.0 BR)

Fernando Gabeira

O carioca Fernando Gabeira se tornou conhecido por seu livro "O que é isso, companheiro?", lançado em 1979. Nele, é narrada uma de suas passagens na luta armada contra a ditadura — o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, dez anos antes. Participou do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que tentava implantar o socialismo no Brasil. Exilou-se na Suécia, onde se formou antropólogo. Gabeira retornou ao País com a anistia e se estabeleceu como jornalista e escritor, defendendo a redemocratização. Abraçou as questões do meio ambiente após o fim da ditadura e é um dos fundadores do Partido Verde.

A presidente Dilma Rousseff abre a Assembleia Geral da ONU, em 2014
Getty Images

Dilma Rousseff

Em 1964, a mineira Dilma Rousseff ingressou no Colégio Estadual Central, em Belo Horizonte. Por conta do recente golpe militar, a militância dos estudantes era comum e a jovem se juntou à Política Operária (POLOP). Durante os anos de clandestinidade, também passou pelo Comando de Libertação Nacional (COLINA) e pela Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Foi presa em janeiro de 1970, torturada, e libertada dois anos depois. Em seguida, deixou Minas Gerais e se estabeleceu no Rio Grande do Sul. Participou da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Leonel Brizola, se tornou ministra da Casa Civil do governo Lula e presidente em 2010.