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Transtornos mentais que flertam com a genialidade

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Introdução

Foi o filósofo grego Sócrates, em um de seus discursos transcritos por Platão, quem primeiramente ligou a arte à loucura. O tempo passou e as biografias de alguns dos maiores gênios da humanidade parecem corroborar com a tese. Depressão, alcoolismo, traumas e transtornos de todas as matizes fizeram com que algumas dessas grandes personalidades mantivessem, ao longo da vida, um comportamento difuso, errático. Agiram de forma muito diferente da apresentada pelas pessoas "normais" de seu país ou geração. Se essas características incomuns lhes valeram oportunidades de se sobressair nas artes, política ou na ciência, também serviram para tornar suas vidas cada vez mais atribuladas ou mesmo para abreviá-las. Conheça casos famosos de transtornos mentais que flertam com a genialidade.

Reprodução internet

Transtorno bipolar

Banalizada nos dias de hoje com uma simples alteração de humor, esta é uma doença mental grave. Causa sintomas como delírios, alucinações e surtos depressivos. Mas os portadores dessa doença também sentem, no início, um enorme desenvolvimento da capacidade cerebral. Geralmente, as pessoas com transtorno bipolar ficam inicialmente hiperativas, dormem poucas horas por noite e ganham vitalidade para passar longos períodos trabalhando e estimulando a criatividade. Por isso, muitos destes pacientes se notabilizaram nas artes, sobretudo na música e na literatura, como a escritora britânica Virginia Woolf. Infelizmente, todo esse furor criativo também se converteu em uma profunda depressão, que a levou ao suicídio em 1941.

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Depressão

São incontáveis os casos de artistas, notadamente poetas, contistas e romancistas, que tiveram de lidar com a depressão durante sua vida e sua carreira. Em geral, eles transcreveram toda sua tristeza para suas obras, mostrando pontos de vista pessimistas sobre o mundo, a política, o ser humano e, principalmente, sobre o amor. Por outro lado, enveredaram por caminhos novos na literatura, tanto na forma quanto no conteúdo. Encaixam-se nestes exemplos ícones como o poeta britânico Lord Byron (foto) e a romancista norte-americana Sylvia Plath. Mas não são apenas os escritores a sofrer deste mal. Inventores geniais, como o brasileiro Alberto Santos-Dumont, também se incluem nesta lista.

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Paranoia

Se você hoje lava suas mãos regularmente e ferve os alimentos antes de consumi-los, você certamente deve isso ao cientista francês Louis Pasteur. Ao investigar a vida e ação dos micróbios, deu um salto gigantesco na medicina de prevenção, ajudando a salvar milhões de vidas nos anos seguintes. Seu detalhismo e preocupação com pequenos fatores foi fundamental para suas descobertas, mas em pouco tempo se converteu em uma variação de paranoia. Ficou tão obcecado com os microorganismos que não comia nada sem verificá-los com uma lente de aumento. Não se sabe se esse comportamento era típico de sua personalidade ou apenas um curioso hábito adquirido, mas a verdade é que este transtorno esteve diretamente ligado às suas geniais descobertas.

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Esquizofrenia

Há muitas manifestações esquizofrênicas devidamente relatadas nas biografias de grandes artistas. Algumas, no entanto, não foram precisamente diagnosticadas no período em que viveram. Um exemplo típico é o do irlandês James Joyce, conhecido pelos experimentos extremos com o idioma inglês em livros difíceis como “Ulysses” e, principalmente “Finnegans Wake”. Para muitos, tratam-se de obras quase que incompreensíveis, ainda mais se vertidas para outras línguas. A louca genialidade do escritor pode ser explicada pelos delírios auditivos que o acometiam. Carl Jung, baseando-se nos livros, cartas e relatos deixados pelo autor, sugeriu que ele pudesse ser portador de esquizofrenia. Um caso a ser melhor explorado.

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Esquizofrenia paranoide

Das várias manifestações de esquizofrenia, a paranoide é a mais perceptível, por causa de sua homogeneidade. Suas principais características são os delírios que alteram as percepções sensoriais do paciente. Essa alteração acaba estimulando talentos especiais, como na música, que lida diretamente com o som e as emoções que este provoca. Um exemplo claro é o do compositor alemão Robert Schumann, que se tornou um gênio musical no século XVI. No entanto, o mesmo furacão mental que o tornara um mito das artes acabou por levá-lo à loucura. Outra grande personalidade enfocada foi o matemático norte-americano John Nash, vencedor do Nobel de Economia em 1994 e que teve sua vida e seu drama retratados no filme “Uma Mente Brilhante”, com Russel Crowe (foto).

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Síndrome de Tourette

Desordem neurológica, a síndrome de Tourette se caracteriza por espasmos constantes, bem como vocalizações em incessante repetição. Essas espécies de tiques são tão particulares que não existem casos de duas pessoas com os mesmos sintomas no mundo. Diagnosticada pela primeira vez em 1885, ela já era descrita informalmente décadas atrás. O mais famoso portador da doença, inclusive, vivera cem anos antes: Wolfgang Amadeus Mozart, o genial compositor austríaco. Sofria de tiques musculares, sonoros, coprolalia (tendência involuntária de falar palavras obscenas) e passava por momentos de depressão. No entanto, também era afetado por uma hiperatividade que acabou influenciando em sua música.

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Epilepsia psicomotora

Vincent Van Gogh, o torturado pintor holandês, é a mais conhecida vítima da epilepsia psicomotora. A doença foi diagnosticada em 1888 pelo médico Felix Rey, quando o artista tinha 35 anos. Àquela altura, ele já havia sofrido com surtos e delírios diversos, chegando inclusive ao cúmulo de cortar sua própria orelha. Durante os últimos anos de sua vida, em que os sintomas atingiram uma intensidade insuportável, ele sofreu com alucinações auditivas e visuais. Possivelmente, as cores fortes faziam parte desses instantes de loucura, que posteriormente seriam reproduzidos nos belíssimos quadros que se tornaram um marco do surrealismo nas artes plásticas.

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Síndrome de Asperger

Doença mental com espectro autista, a Síndrome de Asperger não provoca atraso no desenvolvimento cognitivo de seu portador, como o autismo clássico. No entanto, causa forte desejo de isolamento social e reclusão. Muitas dessas pessoas enfrentam dificuldades especialmente na adolescência, quando o convívio social começa a se intensificar. Estas dificuldades, no entanto, tendem a ser minimizadas na idade adulta. A reclusão e a obsessão por detalhes pouco perceptíveis, por sua vez, podem se tornar uma vantagem em algumas áreas, como a indústria tecnológica. Exemplos clássicos: o empresário Bill Gates, criador da Microsoft, e os físicos Albert Einstein (foto) e Isaac Newton, tidos como gênios de suas épocas.

Arquivo

TOC

Aviador, produtor e diretor cinematográfico, engenheiro aeroespacial Howard Hughes fez de tudo um pouco, inclusive se tornar um dos homens mais ricos dos EUA. Tudo isso graças à sua apuradíssima organização e disciplina espartana. O que parecia um hábito comum se revelou ser fruto de TOC, ou Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Sua vida passou por diversas atribulações e ele sempre sofreu com a fobia em doses extremas, especialmente aos germes: todos que se aproximavam dele tinham de estar com luvas. Sua comida era servida totalmente em lenços de papel e só conseguia dormir nu, em aposentos que ele julgava estar livre de micróbios. Sua vida foi retratada no filme "O Aviador", com Leonardo di Caprio (foto).

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Psicose

Poucas obras são tão emblemáticas na descrição do desespero quanto o quadro “O Grito” (foto), do pintor norueguês Edvard Munch. Não era para menos. Ele sofria de um estado psicótico grave, que resultava em crises maníaco-depressivas. Ele próprio admitia ser portador de doença mental, mas curiosamente, recusava uma terapia. "Prefiro continuar sofrendo desses males, porque são parte de mim e de minha arte", chegou a afirmar certa vez. A frase sintetiza o que ele pensava de sua psicose: apesar de todo o sofrimento que lhe afligia, o artista acreditava que a doença era também o motor de seu incrível e indiscutível talento.